O filme-greve de Godard

Sem créditos, sem estrelas e sem qualquer identificação de autoria, Um Filme como os Outros marcou o início da radicalização do cinema de Jean-Luc Godard e sua primeira consideração sobre o Maio de 68.

(Texto publicado originalmente na Carta Maior)

3 de maio: os estudantes entram em confronto com a polícia na Sorbonne e dão início ao chamado Maio de 68.

13 de maio: começa a grande greve “selvagem” que uniu trabalhadores e estudantes.

19 de maio: um grupo de cineastas interrompe o Festival de Cannes em solidariedade ao movimento. Entre eles, Jean-Luc Godard.

Julho: Godard reúne três estudantes e dois operários num terreno baldio, nos fundos da fábrica Renault, para rodar Um Filme como os Outros.

Era a primeira consideração do cineasta-militante a respeito do Maio de que havia participado ativamente. Sua voz se faz ouvir em pouquíssimos momentos, fora de quadro, mas está muito presente como busca de uma forma política de filmar a política.

Um Filme como os Outros tem basicamente dois materiais: em cores, uma conversa entre os cinco personagens (quatro rapazes e uma moça), quase sempre com os rostos encobertos pelo mato alto, voltados de costas para a câmera ou cortados pelo enquadramento; e cenas documentais em preto e branco de debates na universidade, discussões em porta de fábricas, refregas com a polícia nas ruas.

O quinteto anônimo discute a situação da classe trabalhadora e a complexa relação entre estudantes e operários. Combina formas de agitação e mobilização. Comenta os ecos das lutas de libertação na China, no Vietnã e na América Latina. Em pauta também o contato com a cultura burguesa, as desavenças entre trabalhadores e instituições como o Partido Comunista e a Confederação Geral do Trabalho, o recurso à violência e à ilegalidade como forma de luta.

Os estudantes dizem-se dispostos a romper com a sua condição privilegiada – a mesma dos intelectuais – e recusam a universidade como fábrica de executivos burgueses. Algumas arestas se colocam pelas vozes dos dois trabalhadores, que dizem compreender essas intenções, mas eventualmente discordam do método ou mesmo da viabilidade dessa aliança. O que fazer? Abrir as fábricas aos estudantes ou abrir a universidade aos operários? Ou pelo menos os restaurantes das universidades para eles fazerem suas reuniões?

Tudo isso se dá numa tranquila conferência informal, que ironicamente evoca um déjeneur sur l’herbe marxista. Essa rodinha plácida contrasta violentamente, em cor e movimento, com as imagens dos combates nas ruas e as fisionomias tensas diante das fábricas. Esse distanciamento pode ser visto como uma crítica do cineasta aos impasses de Maio, mas é também um testemunho muito godardiano sobre a importância do discurso nos processos de sublevação.

“Toda a luta de classes pode ser resumida a uma palavra contra outra palavra”, reza uma das muitas citações em off que interrompem frequentemente a conversa no meio do mato. São excertos de teoria revolucionária, proposições e notícias sobre acontecimentos recentes. As falas ora se alternam, ora se sobrepõem, criando uma polifonia que está na base mesmo do cinema de Godard.

Mas onde Um Filme como os Outros mais se conecta com o espírito do Maio de 68 é na sua condição de filme-greve. “Todas as categorias param na França, menos o cinema”, diz uma das tantas vozes vindas não se sabe de onde. Depois de ajudar a interromper Cannes, Godard interrompe sua própria carreira comercial e, a partir daí, inicia sua fase mais militante. Passaria a trabalhar com Jean-Pierre Gorin no Grupo Dziga Vertov e abandonaria por quatro anos o cinema de arte e ensaio.

Nesse longa-metragem sem créditos, sem estrelas e sem qualquer identificação de autoria, Godard fez greve de cinema sem deixar de fazer um filme. Tudo aqui é interrupção e desconstrução. Tudo sabota os processos de identificação com os personagens e a economia da narratividade burguesa no cinema. Feito em película de 16mm para a televisão, Um Filme como os Outros só chegou a ser exibido em cineclubes e no circuito alternativo. Godard costumava instruir o projecionista a jogar cara ou coroa para decidir qual dos dois rolos passaria primeiro.  

Passado o interregno mais radical, o diretor voltaria à seara da ficção e do estrelato em 1972 com Tout Va Bien. O “joli mai”, porém, continuava a pulsar em suas veias.

——– Sobre esse filme, convido-os a ler também este artigo de Andrea França Martins e Leonardo Esteves

 

3 comentários sobre “O filme-greve de Godard

  1. Gosto do filme por ser uma aula de entendimento do que seja a militância, com todas as suas contradições.

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