Mãe não há só uma

Com ENTRE-LAÇOS, a diretora Naoko Ogigami introduz uma grande novidade no subgênero japonês “haha mono”, de filmes sobre as relações entre mães e filhos. Há cinco mães em cena, sendo que uma delas some de casa logo no início, deixando a filha de 11 anos aos cuidados do tio. Este vive maritalmente com Renko, uma mulher transgênero. É pela perspectiva da pequena Tomo que o filme vai construir sua terna defesa da diversidade sexual.

O filme suscitou no Japão a pergunta: estaria o público japonês preparado para amar uma personagem transgênero? Naoko, mãe de dois gêmeos, tratou o assunto com extrema delicadeza e um leve sentimentalismo, mas sem deixar de olhar de frente as questões da homofobia, dos preconceitos e, no lado oposto, a compreensão motivada pelo amor.

O aprendizado da menina Tomo se dá gradativamente, entre hesitações e alguma confusão mental. Em torno dela, exemplos contrastantes de conduta materna colocam na berlinda valores sumamente japoneses como vergonha, aceitação e cuidado recíproco. A relação de Tomo com um coleguinha gay, bem como o carinho maternal que ela encontra na “estranha” Renko, vão pontuar sua tomada de consciência a respeito de um mundo menos convencional.

O estilo de Naoko Ogigami é de um naturalismo rígido, muito formal, ainda que afável e gracioso. Isso se reflete na interpretação do astro em ascensão Tôma Ikuta, no papel de Renko, que chega a exagerar na caracterização da boa moça e devotadíssima mãe substituta. Achei particularmente curiosa a forma como a diretora-roteirista administra a discrepância entre ousadia e tradicionalismo. Apesar da grande franqueza nas conversas sobre o corpo e o sexo, o vínculo entre Renko e seu companheiro parece quase platônico, assim como o encaminhamento final tende para o conservadorismo.

Tendo partido de uma notícia de jornal – uma mãe teceu um par de seios de lã para o filho transgênero –, Naoko urdiu um doce subtexto com os múltiplos sentidos da prática do tricô. Eis aqui um filme profundamente feminino em acepção bem larga, para além da sexualidade binária.

Junto com Uma Mulher Fantástica (com que mantém certo parentesco), Me Chame pelo seu Nome e God’s Own Country, ENTRE-LAÇOS marcou o Festival de Berlim de 2017 como um dos mais interessantes para os filmes LGBTQ.

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