Más atitudes e boas intenções

ASSUNTO DE FAMÍLIA 

Vou problematizar um pouco a leitura de ASSUNTO DE FAMÍLIA. Para mim particularmente, a Palma de Ouro de Cannes e a excelente recepção critica internacional não fizeram bem ao filme. Criaram uma expectativa intensamente positiva a que a obra na tela não conseguiu corresponder.

Longe de mim questionar a maestria de Hirokazu Kore-eda na composição de seus personagens complexos, cheios de arestas interessantes, ou na enganosa simplicidade de sua maneira de filmar, que dissimula sofisticadas estruturas baseadas em fragmentos de cenas.

ASSUNTO DE FAMÍLIA é mais uma variação de temas frequentes na filmografia do diretor. Este, aliás, poderia ser o título de diversos filmes seus, que tratam de configurações familiares menos comuns, adoção, parentescos complicados e solidão infantil. Aqui, o componente novo é o aspecto moral.

Com essa história de uma falsa família que sobrevive de trabalhos precários e pequenos furtos em lojas – e cresce à base de “furtos” de crianças desprezadas pelos pais – Kore-eda volta a falar de vínculos de afeto que se estabelecem para além dos laços de sangue. Mas aborda também a dignidade dos delinquentes, procurando enfatizar uma suposta inocência do roubo (“o que está na loja não tem dono”). Digamos, uma versão família e adocicada da escola de ladrões de Oliver Twist.  

Não é difícil simpatizar-se com aquele grupo cheio de más atitudes e boas intenções – e sem problemas de moral ou consciência. Difícil é situar-se em meio àquelas relações ambíguas, o que só se torna possível a partir da intervenção da polícia e de uma sucessão de esclarecimentos que me soou por demais convencional. Ainda assim, após a sessão vi gente apontando os personagens no cartaz e tentando assimilar quem era o quê.

O sentimentalismo explícito de diversos momentos demonstra que Kore-eda já foi mais sutil em filmes como Ninguém Pode Saber, Minha Irmã Mais Nova e Pais e Filhos. ASSUNTO DE FAMÍLIA é brilhante no trabalho do elenco e intrigante na forma como lida com a moral, mas demorou muito a me tocar e deixou, ao final, um sabor de déja vu.

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