Um menino que quase não existe

CAFARNAUM

A Índia tinha Salaam Bombay!, o Brasil tinha Pixote. Agora o Líbano tem CAFARNAUM como seu clássico sobre a infância brutalizada. A atriz e diretora Nadine Labaki não doura nenhum pílula ao retratar uma área caótica e miserável de Beirute, onde vive a família do menino Zain. Imagens aéreas mostram um bairro sujo e cinzento, em cujas ruas crianças brincam de guerra, como é de praxe. Na casa de Zain, imperam a violência e a desordem, bem ao contrário do retrato afetuoso do japonês Assunto de Família, para citar logo um exemplo contrastante.

Nadine usa o tribunal – onde aparece numa ponta como a advogada bonita – como mero pretexto narrativo. Quando o filme começa, Zain está na dupla condição de presidiário e acusador. Enquanto cumpre pena por um crime, ele processa os pais não pelos maus tratos sofridos, mas simplesmente por terem-no colocado no mundo. Isso soa quase como uma anedota, servindo apenas para detonar os flashbacks que vão contar a história do menino. Uma história de privações, raiva e alguma ternura.

Zain Al Rafeea e Nadine Labaki

CAFARNAUM se constrói, entre outras coisas, como um tributo à solidariedade infantil. Dotado de um grande senso de proteção, Zain rompe com os pais quando eles vendem a filha de 11 anos para um casamento com o filho adulto do locador do imóvel onde moram. Ele sai de casa e passa a viver na rua, mas é logo abrigado por Rahil, refugiada etíope que faz jornada dupla como faxineira e prostituta. Novos fatos farão com que Zain passe a cuidar do filho bebê de Rahil (na vida real, a menina Boluwatife Treasure Bankole), criando assim novo laço de cuidado e responsabilidade para o garoto.

Zain é um personagem inesquecível. Seu intérprete, Zain Al Rafeea, é um refugiado sírio que ainda não tinha aprendido a ler quando fez o filme. Sua atuação é de excepcional espontaneidade e imensa veracidade. Numa cena de autorreferência irônica, Zain finge ser um refugiado sírio para obter alguns víveres num centro de atendimento. Encabeçando um elenco composto basicamente de atores não profissionais, com seu olhar intenso e triste, Al Rafeea encarna à perfeição o caráter precoce, inconformista e ao mesmo tempo terno e sensato de sua contraparte ficcional. Um crítico americano o comparou a uma miniatura de James Dean.

Depois de dirigir dois filmes apenas razoáveis (Caramel e E Agora, Aonde Vamos?), Nadine Labaki surpreende com um trabalho de naturalismo primoroso, pontuando em detalhes milimétricos o comportamento das crianças e, de maneira geral, o modo de vida e sobrevivência das pessoas naquela zona conturbada da capital libanesa. A câmera sempre na mão, a montagem atenta aos pormenores mais significativos e a interação genuína entre os atores criam uma sensação de proximidade muito eficaz para o espectador.

Justamente por sua densidade dramática, a alguns CAFARNAUM poderá parecer exacerbado no retrato da miséria e dos muitos infortúnios que atingem ou cercam Zain. Já houve quem acusasse Nadine Labaki de fazer exploração da penúria de seus conterrâneos. Não acho justo. Embora não assuma feição de filme-denúncia, CAFARNAUM (termo que, para além de sua significação bíblica, exprime caos, confusão) faz um painel concentrado de uma realidade que nunca apareceu no cinema libanês. A realidade dos sem-documento, seja por incúria familiar ou por imigração. O mundo dos que quase não existem, desprovidos que são de comida, identidade e inocência. Aqueles que, como Zain, só conseguem sorrir quando são praticamente obrigados a fazê-lo.

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