Do jeito da galera

ESPERO TUA (RE)VOLTA

ESPERO TUA (RE)VOLTA aponta uma solução para um dilema do filme político, que é a comunicação com o público jovem. Como “devolver” à juventude a imagem que ela projeta nas lutas estudantis? Como retratar um modo de fazer política que é ao mesmo tempo guerreiro e lúdico, potente e anticonvencional?

Eliza Capai, 40 anos, se alinhou a uma galera que participou do movimento estudantil em São Paulo entre as manifestações de 2013 e a eleição do presidente de extrema direita em 2018. Não fez um filme coletivo, mas ancorado nas experiências e na dicção audiovisual dos jovens. Em lugar de uma retrospectiva monolítica da atuação dos estudantes, encenou uma disputa de narrativas entre três secundaristas de São Paulo.

Marcela Jesus, Nayara de Souza e Lucas “Koka” Penteado são indivíduos com perspectivas e formas diferentes de participação nos acontecimentos – embora nenhum se identifique com os jovens de direita que aparecem marginalmente no filme. E são também representantes de demandas hoje indissociáveis do exercício político tradicional, as dos negros e dos LGBTs. Com as vozes deles, Eliza simulou um filme que se apresenta em plena construção, ecoando suas dúvidas e indignações, seus espantos e temores, assim como sua euforia em face de cada vitória.

Há a militante comum, a dotada de liderança e o artista. Os pontos de vista se alternam, desde a excitação com a descoberta da ação nas ruas em 2013, passando pela decepção com o vácuo ocupado pela direita e as sucessivas lutas pela educação nos anos seguintes. A ocupação das escolas paulistas em 2015 preenche a parte áurea do filme com um amálgama virtuosístico de cenas filmadas por cinegrafistas independentes, imagens de televisão e flagrantes dos três personagens principais em meio às conflagrações com a polícia e à convivência com seus companheiros de grupo.

Em nenhum momento se perde o vínculo entre a mirada pessoal dos protagonistas e a sucessão de ocupações, protestos, espancamentos covardes de estudantes por policiais. Os atos corajosos da garotada e a prática da convivência dentro das ocupações eram o seu aprendizado político, seu vestibular de cidadania. O que se vê ali é uma nova concepção de movimento estudantil que se descola da política tradicional mas, à medida que racionaliza o equívoco de 2013, atua como força imprescindível do campo progressista, hoje na mira do governo fascista.

A perspicácia de Eliza Capai para enunciar essa história com tanta potência e legitimidade lhe valeu dois prêmios no último Festival de Berlim, o da Anistia Internacional e o Prêmio da Paz, este concedido pela Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde alemão. ESPERO TUA (RE)VOLTA está sendo exibido até quinta-feira no Instituto Moreira Salles (Rio). Merece circulação muito mais ampla, principalmente entre plateias jovens. Sessões públicas gratuitas podem ser organizadas a partir do site da distribuidora Taturana Mobilização Social.

Leia entrevista com Eliza Capai na revista Forum.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s