Maria entre Holanda e Brasil

Matéria de Carlos Alberto Mattos para O Estado de S. Paulo em 2001, quando Maria Augusta Ramos preparava a produção de “Juízo”.

Com “Desi”, a documentarista Maria Augusta Ramos chegou ao topo no cinema holandês. Mas tudo o que ela quer é replantar suas raízes brasileiras. 

Nas últimas semanas, as audiências do fórum judiciário do Rio de Janeiro têm contado com uma freqüentadora assídua. Ela não está envolvida com nenhuma das causas em pauta, mas ouve com atenção relatos de crimes, testemunhos e condenações, conversa com magistrados, faz perguntas. Pouca gente a conhece no Brasil. Ela está colhendo histórias e escolhendo personagens para um documentário sobre a maneira como a sociedade brasileira se apresenta – e se representa – nas cortes judiciais. Parte dos recursos para a produção vêm da Holanda, onde a cineasta construiu uma carreira digna de prêmios e respeito. Mas um detalhe significativo a distingue dos documentaristas estrangeiros que costumam aportar por aqui: Maria Augusta Ramos é brasileirinha da silva.

Embora vivendo fora do Brasil há 14 anos, Maria Ramos (como ela assina os filmes) nunca renunciou ao interesse pelo seu país. Em 1995, enquanto ainda cursava a Academia de Cinema e Televisão da Holanda, realizou o documentário “Brasília, um Dia em Fevereiro”, em que retratava sua cidade natal através de fragmentos da vida de uma esposa de diplomata, uma estudante universitária e um vendedor ambulante de espelhos. O filme rodou os festivais internacionais de documentários e foi premiado em Brasília e no É Tudo Verdade. Mais recentemente, ela elegeu usuários da Central do Brasil para fazer o episódio brasileiro da série “Trilhos”, da TV pública holandesa, sobre viagens de trem. O programa vai ao ar em 2002.

“Não me sinto como uma brasileira que foi embora”, garante, “mas como alguém que sempre esteve na ponte entre o Brasil e a Holanda”. Eis uma prova de sua sinceridade: ela resolveu estreitar ainda mais essa ponte justamente no momento em que sua trajetória holandesa atinge um clímax. Em outubro último, seu longa-metragem “Desi” foi agraciado com o Bezerro de Ouro, o prêmio máximo do cinema holandês, como o melhor documentário da temporada. Um mês antes, o filme havia conquistado o prêmio do público no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, a Cannes do gênero.

“Desi”, que abriu a última edição do festival É Tudo Verdade e está sendo avaliado por distribuidores brasileiros, é uma jóia do documentário pessoal. Acompanha o dia-a-dia de uma menina holandesa comum, de 11 anos de idade, que supera com desenvoltura um contexto familiar dramático. A mãe morrera quando ela ainda era bebê, de uma depressão pós-parto. O pai, desempregado, vive num barco, às turras com uma namorada. Desi (pronuncia-se Daisy) Müller tem que perguntar diariamente, pelo celular, onde irá dormir naquela noite. Sua principal relação de carinho é com Tainá Lagoeiro, uma amiguinha brasileira, e os pais dela. O filme não explora o melodramático das situações, nem contém entrevistas ou depoimentos diretos para a câmera. Tudo é revelado em conversas íntimas entre os personagens, habilmente pautadas e acompanhadas por uma câmera discreta, mas afetuosa. Maria Ramos é fiel discípula do cinema direto, onde a câmera deve constituir uma instância neutra, “despercebida” tanto pelos personagens como pelos espectadores.

Ela cita o documentarista holandês Johan van der Keuken, a cineasta belga Chantal Akerman e o japonês Yasujiro Ozu como inspiradores de seu trabalho. Mas o cinema só a fisgou aos 28 anos de idade. Até então, era uma musicóloga aplicada, que praticamente se alfabetizou ao piano. Formou-se em Música pela Universidade de Brasília, mas nunca aspirou a uma vida de concertos. Em torno disso, chegou a ter sérios desentendimentos familiares, uma das razões que a levaram a partir sozinha para a França, aos 22 anos, atraída por cursos de música contemporânea e eletroacústica. “Eu estava em crise com a música. Marx, Freud e as ideias me interessavam mais”, recorda. Dessa guinada resultou um mestrado na London City University com uma tese cabeluda sobre uma obra do compositor francês Bernard Parmeggiani, analisada à luz da psicologia cognitiva. Nas horas vagas, ela se apaixonou pelo pianista holandês Henkjan Honing e acabou transferindo seus alfarrábios para Utrecht.

Corria o ano de 1990, e Maria Ramos queimava os navios da música e começava tudo do zero no cinema. “Eu vivia uma crise de identidade, tendo ainda que me ajustar aos rigores calvinistas e à relativa frieza das relações na Holanda”, conta, “mas resolvi aproveitar minha experiência em pesquisa e no contato com gente”. Os filmes começaram a surgir, marcados por temas como o rompimento de laços familiares e o trabalho arduamente individual contido na construção de identidades próprias. O primeiro, não por acaso intitulado “Acho que o que eu quero dizer é…”, documentava os dilemas íntimos de uma chinesa que havia trocado marido e filho por uma nova vida na capital holandesa. O segundo, “Boy e Aleid”, flagrava um dia na vida de seus sogros, também repleta de traumas familiares e queixas mal dissimuladas.

O próprio casamento de Maria e Henkjan não resistiria ao tempo. Em 1996, convidada a participar de uma série de TV sobre atribulações infantis, ela fez um pequeno documentário sobre uma menina agastada pela separação dos pais. Em seguida, ofereceu ao mesmo canal um projeto sobre crianças falando de amor. A série “Borboletas no Estômago” (expressão holandesa para “estar apaixonado”), integralmente dirigida por ela, coletou seis histórias surpreendentes de amor hetero e homosseuxal entre meninos e meninas de 10 a 14 anos. Entre seus próximos projetos, Maria quer refazer esse trabalho com crianças brasileiras.

O sucesso desses documentários conquistou a admiração do produtor Pieter Van Huystee – o mesmo do falecido Johan van der Keuken –, que viabilizaria a realização de “Desi”. Hoje, Maria Ramos pode se considerar estabelecida na linha de frente de um país com sólida tradição no cinema documental, representada por nomes como Joris Ivens, Bert Haamstra e van der Keuken. Vai longe o tempo dos preconceitos iniciais, quando ela precisou provar que era capaz. “Eu provei”, afirma com segurança. Mas nem isso garante um mar-de-rosas, num momento em que, ao contrário do Brasil, a Holanda registra uma presença decrescente dos documentários nas telas de cinema. “A direita acha que lugar de documentário é na televisão. E os burocratas da TV exigem entrevistas, depoimentos, explicações rápidas de questões centrais, coisas que não fazem parte do meu estilo”, explica.

No fundo, não tem Bezerro de Ouro que substitua a satisfação de ter sua obra conhecida pelo público brasileiro. Este é o seu principal desafio no momento. Nas sessões do fórum judiciário, Maria observa atenta a atuação de réus, juízes e testemunhas. Confia na sua intuição para selecionar os personagens certos, capazes de expressar a gama de humanidade que pretende enfocar em “Diante das Penas” (título provisório). “Nisso eu nunca erro”, diz sem afetação, como quem fala da coisa mais simples desse mundo. Talvez seja isso mesmo. Maria Ramos faz documentários com a convicção e a naturalidade de quem cuida da própria vida. Em breve, você vai conhecê-la por inteiro.

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