Fontoura na fonte

Antonio Carlos da Fontoura comemora seus 80 anos no Recine com um novo Ver Ouvir e a cópia restaurada de Copacabana me Engana

Em 1966, Antonio Carlos Fontoura (na época sem o “da”) realizou Ver Ouvir, curta antológico sobre os pintores Roberto Magalhães, Antonio Dias e Rubens Gerchman, todos na flor dos seus 20 e tantos anos. O cineasta levou os artistas para as ruas do Rio em performances curiosas. Roberto brincava nos véiculos e espelhos deformadores de um parque de diversões. Antonio circulava pela cidade e entrava numa exposição de seus quadros envergando uma máscara contra gases. Rubens e seus quadros se expunham em meio ao caos urbano, de onde retirava inspiração. A fotografia era de David Drew Zingg e a montagem, do mestre Mario Carneiro.

Cinquenta e quatro anos depois, Roberto é o único personagem sobrevivente e estrela o novo curta de Fontoura, Ver Ouvir – Roberto Magalhães. A movimentação e a estética pop do primeiro filme deram lugar a um olhar meditativo sobre o pintor em retiro na sua casa da serra, envolvido numa aura de espiritualidade e paz interior. As obras, porém, continuam a privilegiar os seres e veículos fantásticos, as flores imaginárias e as deformações que sempre caracterizaram o universo do artista.

Seriam Fontoura e Magalhães os mesmos de 1966? Sobre isso e outros assuntos é que vou conversar com eles, logo após a exibição dos dois curtas no dia 27, a partir das 19h, na sessão de encerramento do Recine.  Antes, porém, às 16h, o festival vai apresentar a cópia restaurada de Copacabana me Engana (1968), clássico urbano do Cinema Novo e primeiro longa de Fontoura.

Corpos de Copacabana

“Ai de ti, Copacabana”, suspirou o cronista Rubem Braga num célebre texto, poeticamente apocalíptico. Esse denso concentrado humano da Zona Sul carioca é cenário de Copacabana me Engana, título saído de uma canção de Caetano Veloso. No filme, Antonio Carlos da Fontoura faz um psicodrama da classe média em meados da década de 1960, com personagens marcantes, elenco de primeira, um excepcional trabalho de câmera e uma trilha sonora de cores tropicalistas.

Copacabana me Engana exibe o bairro como paraíso e inferno de uma classe média empenhada no sonho de ascensão social – a mesma classe dissecada um ano antes pelo cinema-verdade de Opinião Pública, de Arnaldo Jabor. Marquinhos, o protagonista, não quer repetir a fórmula dos pais, como faz o irmão correto e mediocremente bem-sucedido. Mas não sabe como. Espera que a sorte lhe sorria com um salto mágico para a “casa com duas piscinas”. Identifica-se com o maduro Alfeu, amante de sua namorada, um bon vivant experiente. Eis o destino triste que a ideologia do Cinema Novo atribuía à classe média brasileira: passar de uma geração a outra sem mudanças concretas. A pulsão de mudança ficava parada no ar. Aquela turma não ia ajudar em nada a revolução, como deixa clara a sequência em que Marquinhos e sua turma debocham da reunião de sindicalistas.

Os personagens se debatem como insetos numa teia de relações familiares e desdobramentos radicais da vida afetiva que podem lembrar o universo de Nelson Rodrigues. O que se vê é a implosão do núcleo familiar, que no entanto continua aparentemente de pé. Os apartamentos da família e de Irene são os espaços da convenção, com seu mobiliário tadicional, a TV sempre ligada. Daí a função alegórica das janelas, fronteiras onde as pessoas se debruçam como se quisessem evadir-se – ou entrar na vida dos outros, como bons voyeuristas. A rua é a possibilidade de escape: o caos sonoro, as caminhadas em grupos de amigos, o desabafo de Irene em closes magníficos diante do trânsito da Avenida Atlântica.

Os corpos de Odete Lara e do estreante Carlo Mossy atraem a atenção recíproca, assim como das lentes, e portanto nossa. Seminus, parecem conscientes de sua beleza e dispostos a usar e abusar dela. “Quem gosta de mim sou eu mesmo”, diz Marquinhos a certa altura. Nascia naquele período a era do narcisismo, com ênfase na cultura do corpo, da ginástica e da autossatisfação individual.

Nesse sentido, o filme funciona como documentário espiritual de uma época. Alimenta-se diretamente do meio-ambiente e do momento em que está sendo feito, um pouco como na obra de John Cassavetes. Embora não seja exatamente um filme tropicalista, contém ingredientes do movimento, sobretudo na trilha tipo geléia geral. Ouvem-se Baby, Beatles, Tijuana Brass, Beach Boys, Nora Ney, Mutantes, romântigo brega, sons de rádio e TV.

A relação de Fontoura com o Tropicalismo não é desprezível. Um dos três personagens do curta Ver Ouvir era Rubens Gerchman, autor da capa do disco Tropicália e do poster de Copacabana me Engana. Em 1970, Fontoura realizaria outro curta seminal com Os Mutantes.

Comentário enviado pelo crítico Ely Azeredo: 

“Carlinhos, suas escritas (como a de hoje) são leituras acima da mídia. Mas estou certíssimo que ‘Copacabana me engana’ não tem nada a ver com o Cinema Novo. Assim como outros longas de Fontoura. ‘Copacabana’ tem afinidades com filmes de Domingos Oliveira – que lavrou um terreno distante das tendências ideológicas e do experimentalismo predominantes no CN. DO e ACF, coincidentemente – em seus primeiros longas – não se apaixonaram pela crítica social, e sim por suas amadas, Odete Lara e Leila Diniz. Duas atrizes sensuais distantes do modelo cinemanovista.”

Minha resposta:

“Eu acho que o Cinema Novo teve vertentes distintas, inclusive essa de um cinema urbano com tintas existenciais, que inclui Os Cafajestes e Todas as Mulheres do Mundo. Mas entendo seu aparte e quero incluí-lo na postagem do blog.”

 

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