Vitrine da periferia

Pela primeira vez online, o Festival Visões Periféricas inicia nesta quarta-feira (24/3) sua 14ª edição. Desde que surgiu em 2007, criado pelo produtor Marcio Blanco, o Visões se consolidou como uma plataforma de curadoria, promoção e debate da produção audiovisual realizada nas periferias brasileiras. Toda uma geração de jovens criadores passou e se projetou pelo festival, a partir daí conquistando espaço no cinema e nas redes.

“O conceito de periferia no festival é abrangente, incluindo filmes de realizadores de comunidades quilombolas, aldeias indígenas, favelas, negros e mulheres”, explica Marcio Blanco. “Além disso, estamos sempre discutindo a periferia a partir dos filmes, selecionando aqueles que trazem um olhar inovador e esteticamente potente. Nos últimos anos vários realizadores iniciaram voos mais ambiciosos em formatos de maior duração”, complementa.

A edição deste ano, inteiramente concentrada no site do evento, foi viabilizado pela Lei Aldir Blanc e segue até o dia 31. A comissão de curadoria foi composta por Blanco, Kamilla Medeiros e Janaína Damaceno. No programa, 50 filmes de curta, média e longa metragens, divididos em cinco mostras, sendo quatro competitivas. Há espaço para filmes de coletivos audiovisuais e curtas produzidos em cursos de formação audiovisual no Ensino Básico e em projetos do terceiro setor. A mostra não competitiva exibirá filmes premiados em outros festivais e que representam uma forte tendência no cinema periférico de experimentação estética e discussão de temas como raça, gênero e diversidade.

Além das mostras, o festival este ano apresenta três mesas de debate sobre os caminhos do audiovisual periférico pós-pandemia e a inserção de jovens da periferia no mercado audiovisual. O debates acontecem nos dias 25, 29 e 30 de março, sempre às 19h30, com tradução em libras, e serão exibidos no Canal do Youtube e na página do Facebook do festival. No dia 25/3, quinta-feira, às 19h30, o ator Babu Santana participa de uma conversa sobre o festival, com transmissão no instagram do Visões Periféricas. Haverá ainda duas oficinas de produção audiovisual destinadas ao público jovem, a serem ministradas de forma online através da plataforma Zoom.

Os filmes de abertura e encerramento, ambos inéditos, serão, respectivamente, Anastácias, da paulista Thatiane Almeida, e Trem do Soul, do carioca Clementino Júnior.

Anastácias alude no título à figura mítica da escrava Anastácia, curandeira que se recusou a ir para a cama com seu senhor e por isso foi espancada e forçada a viver com uma máscara de ferro cobrindo sua boca. Sem citar diretamente, o filme usa essa referência para apresentar cinco mulheres da periferia de São Paulo que viveram experiências de abandono e violência, mas não se deixaram abater.

Maria Aparecida, Maria Anai, Janaína, Márcia e Cenira contam suas histórias e mostram seu cotidiano de maneira simples e direta. Umas são filhas adotivas, outras sofreram com relacionamentos abusivos, algumas perderam filhos. O roteiro organiza as coisas em três partes: apresentação, relato dos dramas e um bloco final de afirmação no afeto, na autoestima, no exercício da profissão ou no convívio social. Um filme modesto, mas que revela a face humana e resiliente das mulheres periféricas.

Sobre o longa Cavalo, na programação da Mostra Panorâmica, já escrevi aqui.

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