Nordeste: amor, magia e dança

Amanhã (terça, 24/2) é o último dia da 3ª Mostra de Cinema Contemporâneo do Nordeste, que está online aqui. Recomendo dois filmes que serão reprisados somente amanhã: o paraibano O Seu Amor de Volta (Mesmo que ele Não Queira), de Bertrand Lira, e o alagoano Cavalo, de Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti. Chamo atenção, ainda, para o maranhense As Órbitas da Água, de Frederico Machado, que já resenhei no blog (leia aqui).

Os filmes paraibano e alagoano têm alguns pontos em comum. São documentários híbridos, tangenciados pela ficção ou pela performance, e enfocam o universo do candomblé e das vidências. Ambos têm cenas de transes e jogos de búzios, em diferentes aproximações com a magia. São extremamente agradáveis aos olhos e aos ouvidos.

Jogo de (cena) búzios

O mundo de cartomantes, videntes e jogadores de búzios é terreno fértil para o deslizamento constante entre realidade e ilusão, fé e descrença. Quando se trata de lidar com problemas amorosos, aí então as esperanças se confundem ainda mais com a desconfiança. Em O Seu Amor de Volta (Mesmo que Ele Não Queira), Bertrand Lira presta um belo tributo a esse encontro da magia com os afetos.

O documentário se deixa contaminar pela ficção em vários níveis. O ator e maquiador William Muniz, por exemplo, ora assume o papel ficcional de um vidente, ora fala da sua busca amorosa através de Laura Jezebel, a persona feminina que criou para dar vazão a esse lado da sua finíssima sensibilidade. A atriz Marcélia Cartaxo faz um relato de humilhações e desilusão amorosa que mistura a sua própria história com a de Macabéa, sua personagem em A Hora da Estrela. Já Zezita Matos, a grande dama do teatro paraibano, conta sua experiência real com um marido que a abadonou depois de 40 anos de união.

O amor é um bicho descontrolado que nos escraviza a ponto de, muitas vezes, desejarmos ardentemente aquilo que nos maltrata. É o que acontece com a professora transexual Danny  Barbosa, que não desiste de querer de volta um homem que a troca constantemente por mulheres cis. Ou Laura/William, que sonha com o amor de um operário casado que pode não passar de uma miragem do desejo.

Esses e outros personagens são vistos diante de um pai de santo, uma cartomante e um jogador de búzios, também esses ligados ao candomblé. As consultas são reais e curiosíssimas pela performance histriônica dos atendentes. Mas, como em Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, também caem no lusco-fusco entre o cinema de observação e o cinema de encenação. Basta ver o momento em que a cartomante que “recebe” o espírito da entidade Maria Padilha conclui um transe com a pergunta para a câmera: “Acabou?”.

Essas diversas camadas são dispostas com muita graça e liberdade ao longo do filme, que diverte e comove em proporções iguais. Bertrand Lira explora com delicadeza o tanto de performance e sinceridade que se complementam nas diversas caracterizações. O submundo de João Pessoa ambienta os devaneios dos personagens em modo poético, com um uso magnífico da música. Destacam-se aí a ronda noturna de William/Laura ao som de um fado e o playback de Danny no clássico da dor de cotovelo Você Tem o Destino da Lua, que encerra o filme não menos que gloriosamente.


A dança como transe

Cavalo é o primeiro longa-metragem alagoano fomentado por editais públicos. O diretores Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti reuniram um elenco de bailarinos, breakdancers e rappers, sendo alguns deles praticantes do candomblé. Propuseram uma imersão na ancestralidade africana, que vemos acontecer em exercícios de estúdio, performances corporais e atividades religiosas. A ideia foi fazer esses planos se atravessarem de diversas formas.

A água, elemento condutor do axé da vida, tem papel predominante. Sobre, dentro ou sob a água se dão algumas das cenas mais bonitas do filme, em especial os solos viscerais de Joelma Ferreira e Alexandrea Constantino. A dança como transe do corpo ganha feições de linguagem, assim como a streetdance se aproxima da capoeira.

Em busca de um estilo contemporâneo, os diretores se concederam grande liberdade na estruturação do filme, investindo no fragmentário e no descontínuo. Em contrapartida, criaram um plano-sequência reverencial para registrar uma longa cena de despacho para os orixás.

No fim das contas, achei um pouco difícil identificar aonde Barbosa e Bagetti queriam chegar, sobretudo na exploração do conceito do “cavalo” (os humanos escolhidos pelos espíritos para tomarem corpo no candomblé). Mas o caminho até lá, sem dúvida, foi muito bonito e cheio de energia vital.

 

4 comentários sobre “Nordeste: amor, magia e dança

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