Geraldo Sarno, pensador do cinema

Uma das últimas – se não a última – manifestação pública de Geraldo Sarno foi em 17 de novembro do ano passado, no seminário Na Real_Virtual. Em dezembro, ele seria internado para tratar da Covid-19, cujas complicações finalmente o tiraram do nosso convívio ontem, 22 de fevereiro. No seminário, dividindo um encontro com o também baiano Henrique Dantas, Sarno discorreu longamente sobre seu cinema.

Destaco abaixo um pequeno trecho, em que ele especifica seu lugar entre o controle e o imprevisto, vale dizer entre Eisenstein e Vertov, suas constantes e mais fortes referências cinematográficas. Por essa curta explanação, podemos perceber como Geraldo era um pensador, fosse longe ou perto da câmera.

Geraldo Sarno tinha raízes italianas. Seus pais eram comerciantes em Poções, sertão da Bahia, onde nasceu em 1938. Amigo de infância de Glauber Rocha, nutriu sua formação cultural entre os estudos de Direito, a cinefilia e os eflúvios do Centro Popular de Cultura. Indicado pela UNE, foi estudar cinema em Cuba em 1962. De volta ao Brasil depois de um ano, apaixonado pelo neorrealismo italiano e o cinema soviético, aproximou-se do produtor Thomaz Farkas e dos cineastas que haveriam de compor a Caravana Farkas.

Viramundo

Estreou na direção com Viramundo, um clássico instantâneo que abordava a migração interna, principalmente de nordestinos, em direção aos grandes centros do Sudeste. A busca de trabalho, a caridade e a religião formavam um tripé de sobrevivência dos imigrantes. Viramundo foi lançado com mais três curtas no longa Brasil Verdade, de 1964.

Sarno tinha o projeto de realizar uma espécie de enciclopédia audiovisual da vida e da cultura sertanejas. Essa ideia acabou se consubstanciando em vários de seus curtas, que se enquadram nesse espírito. São os casos de Viva Cariri (1969), Vitalino/Lampião (1969), Os Imaginários (1970) Jornal do Sertão (1970), Padre Cícero (1970), A Cantoria (1970), Casa de Farinha (1970), O Engenho (1970) e Segunda-Feira (1974). Esses filmes, assim como tantos outros produzidos por Farkas, foram decisivos para uma descoberta do Nordeste pelo resto do país e uma valorização sem precedentes do fazer documentário no país.

Àquela altura, Geraldo era já considerado um mestre no setor e, junto com Vladimir Carvalho, o grande cronista do Nordeste no cinema. Sua inquietação o levou a desbravar o tema da religiosidade afro-brasileira em filmes como Espaço Sagrado (1976) e Iaô (1976). Nesse último, para ter acesso a uma cerimônia reservada, diretor e equipe passaram por uma iniciação em terreiro Gege Nagô.

As razões políticas da pobreza nordestina foram analisadas em profundidade no média-metragem A Terra Queima (1984), enquanto o impacto da Teologia da Libertação na América Latina foi abordado no longa Deus é um Fogo, de 1992.

O título de Eu Carrego um Sertão Dentro de Mim (1980), inspirado em Guimarães Rosa, talvez resuma o que suas origens representavam para Geraldo Sarno. Mas seus interesses tinham um arco mais abrangente. Dono de vasta cultura cinematográfica, literária e filosófica, ele estudou com paixão as relações entre o neorrealismo italiano, o cinema latino-americano e o Cinema Novo brasileiro. É autor de dois livros: Glauber Rocha e o Cinema Latino-americano (CIEC/Riofilme, 1995) e Cadernos do Sertão (NAU, Bahia, 2006). Nos últimos tempos, preparava um novo, chamado Travessia, e um filme baseado em Rosa.

Entre 1996 e 1999, dividi com ele, José Carlos Avellar e Ivana Bentes o conselho editorial da revista-livro Cinemais, que marcou época como repositório de ensaios e entrevistas sobre cinema. A Cinemais prosseguiu até 2003, tendo publicado 38 números, num projeto idealizado e liderado por Sarno e Avellar. Como decorrência dessa imersão no pensamento sobre sua arte, Sarno realizaria a série de vídeos A Linguagem do Cinema, enfocando o trabalho de dez grandes cineastas brasileiros.

Quando o consultei para minha série de reportagens Faróis do Cinema, em 2011, ele enumerou os filmes que mais o influenciaram. Foram eles Aruanda, de Linduarte Noronha, Mar de Rosas, de Ana Carolina, Outubro, de Serguei Eisenstein, O Homem com a Câmera, de Dziga Vertov, Acossado, de Jean-Luc Godard, Rocco e seus Irmãos, de Luchino Visconti, e Cidadão Kane, de Orson Welles.

Também na ficção Geraldo se exercitou com robustez. Coronel Delmiro Gouveia (1978) retratou um episódio da industrialização do Nordeste nos anos 1910, quando o personagem-título resistiu ao assédio de um grande conglomerado inglês. Já na década de 2000, voltou-se para questões de metalinguagem no cinema e na literatura. Tudo Isso Parece um Sonho, prêmio de melhor direção no Festival de Brasília de 2008, é um ensaio documental sobre como fazer um filme sobre um general brasileiro (nordestino) que participou de lutas de libertação na América Latina. Já O Último Romance de Balzac, prêmio especial do júri em Gramado 2010, é uma investigação sobre criação literária e psicografia.

SertâniaEmbora pertencesse à geração formada em meados do século passado, Geraldo nunca deixou de ser apreciado e de inspirar jovens realizadores recentes. Seus filmes eram exibidos na Mostra de Cinema de Tiradentes e revisitados em estudos acadêmicos. Nos últimos anos, juntou-se a Eryk Rocha, ao fotógrafo Miguel Vassy e ao montador Renato Vallone para realizar sua obra-prima, a ficção Sertânia.

Nesse filme extraordinário, um dos maiores feitos do cinema brasileiro neste século, Sarno concilia a tradição moderna do cinema brasileiro com uma visualidade contemporânea. A história do delírio agonizante de um jagunço dos anos 1920 contempla as diversas vertentes da obra do cineasta: as mitologias do sertão, a consciência social diante da miséria do povo e uma reflexão sobre o próprio cinema como linguagem e como religação do passado com o presente.

Geraldo Sarno partiu muito mais cedo do que deveria. Estava cheio de vitalidade e projetos quando a morte o surpreendeu – a ele e a todos nós, que o admirávamos tanto.

>> Grande parte da obra de Sarno está reunida no site Linguagem do Cinema

6 comentários sobre “Geraldo Sarno, pensador do cinema

  1. Querido Carlinhos, é muita tristeza, às vezes não temos tempo de enxugar as lágrimas por uma grande perda afetiva, e já outras se sobrepõem…
    Quando recebi a notícia através da comadre Rô Caetano, minha reação foi pegar meu livro “Luz, Câmara, Mesa e Ação: O Cinema Brasileiro na Cozinha” e saborear as receitas “Casa Grande & Senzala” e “Casa de Farinha” que fiz em homenagem ao “conterrâneo Velho de Guerra”, Geraldo Sarno. Uma pergunta, você tem este livro? Se não, mande o endereço para eu te mandar ok?

  2. Boa noite, Carlinhos. Belíssima homenagem a esse ilustre cineasta, tão esquecido neste país sem memória e pisoteado, diariamente, por gente que, no momento, empalma o poder oficial, ostentando inacreditável grosseria, brutalidade e ignorância. Com essa “bola” redonda” que você levantou, em momento tão decisivo da vida brasileira, já estou revendo todas as joias do acervo do nosso inesquecível Geraldo Sarno, de valor inestimável. Abração muito grato pela oportuna lembrança. (V. conhece o link de cinema brasileiro “CINEMA NOSSO”, do Kaio Caiazzo, jovem brasileiro que mora na Califórnia? É seu amigo? Gostei muito dele. Excelente pedida esse “site”, não é?

  3. Carlinhos, Recebo essa notícia da partida de Geraldo Sarno por você…que triste perder mais um dos grandes. Por outro lado, que linda sua homenagem! Me desliguei das redes todas, uma coisa meio estranha, mas que foi o jeito que encontrei pra me concentrar na dissertação…mas às vezes rodo o mundo e me atualizo de detalhes do cinema através do seu blog

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