Notas sobre MARCELLO MIO e UM HOMEM DIFERENTE, dois filmes que lidam desajeitadamente com a fisionomia e a identidade de seus personagens.
Uma blague chamada Mastroianni
Christophe Honoré deve ter pensado que descobriu a pólvora quando propôs a Chiara Mastroianni e seus entes queridos o argumento de Marcello Mio. Dada a extrema semelhança de Chiara com seu pai, Marcello Mastroianni, ela faria o seu próprio papel vivendo uma crise no trabalho de atriz e assumindo a personalidade do pai. Ela se vestiria como Marcello em Oito e Meio ou Ginger e Fred, adotaria um cachorro e passaria a tomar uísque, falar somente em italiano e exigir que a chamassem de Marcello.
A comédia se mescla com o psicodrama na medida em que, realmente cansada de ser reconhecida mais como filha de Marcello e Catherine Deneuve (“Não sou ninguém”), Chiara decide radicalizar para um dos dois lados. Ao seu redor, maman Catherine, o ex-namorado Melvil Poupaud, o ex-marido Benjamin Biolay e a amiga Nicole Garcia, todos vivendo versões de si mesmos, põem em cena traços de suas relações reais.
Todos recebem com estupor a decisão de Chiara. O único a apoiá-la, deixando de lado as exigências cartesianas, é o excepcional Fabrice Luchini, ator que adoraria ter contracenado e sido amigo de Marcello. Ele aproveita a oportunidade e embarca de corpo e alma na farsa da colega.
Marcello Mio é uma blague intérieure, ou seja, uma piada interna esticada até a exaustão em seus 121 minutos. O roteiro errático avança por alguns subplots que só fazem alongar o gracejo. Chiara/Marcello relaciona-se com um soldado inglês homossexual e deprimido, numa citação de Noites Brancas, de Dostoievsky, levado às telas por Visconti com Marcello Mastroianni. Numa sequência pretensamente emocionante, mãe e filha visitam uma casa onde supostamente moraram com Marcello nos quatro anos de união do casal.
Caso o psicodrama fosse mais corajoso, talvez chegasse a um melhor resultado. Quando Chiara e Catherine evocam os tempos com Marcello e as características dele, o filme chega perto de alguma consistência. Sabe-se que Chiara de fato lamenta não ter convivido com os pais unidos, uma vez que eles se separaram quando ela tinha dois anos de idade. Mas Honoré não está interessado em nada parecido com a realidade. Sua brincadeira tampouco me divertiu tanto quanto pretendia, a não ser pela participação histriônica de Fabrice Luchini.
>> Marcelo Mio está nos cinemas.
O príncipe que queria ser sapo
A hipótese estapafúrdia de Um Homem Diferente (A Different Man) tenta combinar os arquétipos de O Príncipe e o Sapo e A Bela e a Fera. Edward (Sebastian Stan, de O Aprendiz), aspirante a ator, está prestes a conquistar um papel no teatro por conta de sua monstruosa deformação facial. Ao mesmo tempo, passa por um tratamento de placebo com vistas a corrigi-la. Não vale a pena dizer aqui como isso afinal acontece, até mesmo porque é tão disparatado quanto todo o resto.
O que importa é que Edward vira um belo rapaz empregado numa agência imobiliária. Tempos depois, sua ex-vizinha dramaturga (Renate Reinsve), por quem ele tinha um crush, está ensaiando uma peça baseada no encontro dos dois quando ele ainda tinha o antigo rosto. Edward reaparece reivindicando o seu papel, para o qual ele agora não serve mais. Mas insiste em recobrá-lo de qualquer maneira, mesmo que tenha um concorrente imbatível (Adam Pearson, ator realmente acometido pela neurofibromatose).
O filme escrito e dirigido por Aaron Schimberg tem sido comparado aos de Charlie Kaufman, mas a verdade é que isso só vai, como se diz, até a página cinco. A metalinguagem empregada aqui é canhestra e nem de longe elabora as pretensas questões de identidade, máscara, atuação e atração pelo desarmonioso. O perfil de Edward evolui gratuitamente do acanhamento à psicopatia. A confusão de intenções que afloram nos três personagens não permite um acompanhamento minimamente razoável. Toques de non sense pretendem emular o teatro do absurdo, mas é como se Ionesco descesse próximo ao nível da chanchada.
Se a ideia era discutir o lugar dos feios no afeto e na arte, Um Homem Diferente resultou apenas num filme feio, às vezes asqueroso, e filmado sem imaginação.
>> Um Homem Diferente está nos cinemas.




