ALMA NEGRA, DO QUILOMBO AO BAILE
Este é o quarto documentário a surgir nos últimos anos sobre o fenômeno dos bailes soul dos anos 1970. O primeiro foi Trem do Soul, de Clementino Júnior, centrado nos bailes dos subúrbios cariocas. Depois vieram Baile Soul, de Cavi Borges, que destacava a formação de uma consciência antirracista entre os blacks do Rio, e Black Rio! Black Power!, de Emilio Domingos, radiografia do movimento Black Rio.
Alma Negra, do Quilombo ao Baile não tem como não repetir muitas histórias e personagens já abordados nos filmes anteriores. Afinal, a história é uma só: influenciados pela cultura negra estadunidense e os movimentos de emancipação na África, os brasileiros forjaram e cultivaram uma música, uma estética e uma postura política antirracista que se corporificava nos bailes soul, partindo da periferia e ocupando o centro. Em época de ditadura, o orgulho negro soava como uma ameaça ao status quo.
A história é a mesma, mas a forma de contar e o escopo são diferentes. Flavio Frederico, carioca formado e radicado em São Paulo, ressalta pela primeira vez a dinâmica do soul também na capital paulista. Seu enfoque é mais analítico nos sentidos histórico e sociológico, com grande participação das intelctuais Edneia Gonçalves e, em arquivos, Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez.
Assim é que o fio da memória se estende dos tempos da escravidão no Brasil e nos EUA, passando pela migração da música negra estadunidense dos campos para o jazz, daí ao soul de James Brown e às antropofagias brasileiras via Tim Maia, Jorge Benjor, Cassiano, Dom Salvador, Gérson King, Sandra de Sá, e por aí adentro.
Edneia Gonçalves faz uma linda aproximação entre as formações circulares típicas dos quilombos e as rodas que se abriam nos bailes para os performers mais estelares. Os bailes black seriam sucedâneos dos quilombos, territórios primeiro de fuga, mas logo de congraçamento e afirmação de identidades. A autoestima e a sensação de pertencimento levaram ao Orgulho Negro e ao Movimento Negro Unificado. Abdias do Nascimento parece aí tão importante quanto Big Boy, Mr. Funky Santos e tantos que ajudaram a abrir caminho para uma consciência antirracista na música e na sociedade.
Os episódios de racismo narrados por Zezé Motta e Toni Tornado ilustram como o preconceito se abatia sobre artistas e figuras públicas. A repressão do regime militar e as críticas da esquerda à importação de modelos estrangeiros são lembrados como etapas superadas – até mesmo porque hoje as influências mais presentes na estética negra brasileira são as africanas.
O mix de análise e memória desse filme se consolida em imagens poderosas (pesquisa liderada por Remier Lion) e numa montagem bem ritmada do próprio Flavio Frederico. Na tela, uma genealogia da consciência negra no Brasil, de Zumbi a Zezé. Um belíssimo documentário.
>> Alma Negra, do Quilombo ao Baile está nos cinemas.




