Mulheres-onça

ECLIPSE

Em sua segunda investida na direção, Djin Sganzerla faz uma bela combinação do cinema de gênero com a denúncia social. Não são muitos os cineastas brasileiros que conseguem essa façanha. Haverá quem pense que Djin se afastou de um modo mais experimental como o de seus pais, Helena Ignez e Rogério Sganzerla. Isso não deixa de ser verdade, mas Eclipse honra a filiação pelo apetite cinematográfico, embora em outra chave.

Honra também pela adesão a um ideário de libertação e de afirmação dos poderes femininos ligados à Natureza em oposição a uma cultura masculina tóxica.

Não cabe adiantar muito a respeito do enredo para não estragar o prazer da descoberta. Basta dizer que se trata de duas meias-irmãs: Cleo (Djin), uma astrônoma grávida, bem casada com um marido supercarinhoso (Sérgio Guizé) vivendo na classe média alta de São Paulo; e Nalu (Lian Gaia) filha de mãe indígena que trabalhava numa fazenda colonial onde era assediada pelo filho do patrão.

Ao mesmo tempo que Nalu reata contato com a irmã depois de muitos anos de animosidade recíproca, Cleo começa a desconfiar que o marido mantém vínculos suspeitos na deep web. O tema do abuso sexual, herança de relações escravocratas “atualizadas” pela misoginia red pill, ganha aqui uma abordagem não discursiva, mas desenvolvida num thriller pulsante e inquietante (roteiro de Djin e Vana Medeiros).

Eclipse tematiza também a aliança entre os mundos urbano e indígena, sem que cada um renuncie a suas características. Enquanto Cleo busca o reconhecimento pela sua descoberta de um asteroide, Nalu traz a força da ancestralidade para sua luta que tem valor simbólico. No fim das contas, cada uma será onça à sua maneira.

Djin demonstra um raro senso de medida na direção, mantendo os diálogos à meia voz e deixando que a tensão se instale no campo visual, na trilha musical meio bernardhermanniana de Gregory Slivar e no trabalho da equipe de som. O que faltou em matéria de solidez dramatúrgica em seu filme de estreia, Mulher Oceano, aqui tem de sobra. Diante disso, o fato de Nalu ter um destino final em aberto é um aceno interessante à incompletude.

A fotografia de André Guerreiro Lopes é mais uma vez primorosa, povoada de claros-escuros que remetem ao eclipse. Como em Mulher Oceano, Djin cria espelhamentos entre duas mulheres de formações e ambientes distintos, com a diferença de que não estão mais separadas geograficamente. O encontro de Cleo e Nalu é como a superposição de dois corpos celestes femininos, à moda de um eclipse ao revés, que traz a luz em lugar da escuridão.

>> Eclipse está nos cinemas.  

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