Um filme no futuro do pretérito

MAMBEMBE
A história é mais ou menos assim: em 2010, Fabio Meira concluía seu curso de cinema na Escola de Cinema e TV de Cuba e saía pelo norte e nordeste do Brasil em busca de personagens para seu primeiro longa, que se  chamaria Mambembe. A produção pifou no meio do caminho, mas já depois que ele havia escolhido o elenco e gravado um pouco da história de um topógrafo solitário (Murilo Grossi) que tem seu caminho cruzado por três mulheres de circo.

De certa forma, esse filme já anunciaria o gosto de Fabio pelas tramas envolvendo o feminino plural. Afinal, ele viria a fazer As Duas Irenes, sobre duas meias-irmãs vivendo vidas espelhadas, e Tia Virgínia, pororoca de três irmãs num encontro natalino.

As protagonistas de Mambembe são Jéssica, expert no bambolê, a dançarina trans Madona Show e a multiartista circense Índia Morena. Como Fabio as encontrou? O que chegou a ser filmado e o que faltou? O que foi feito delas 10 anos depois?

Esse processo de criação é lindamente dissecado nessa versão final de Mambembe. Estamos diante de um fato cinematográfico raro, que é um filme feito no futuro do pretérito. O que seria o Mambembe original aparece um pouco como intenção, um pouco como coisa realizada. No horizonte, uma semelhança com Cabra Marcado para Morrer, projeto de ficção interrompido que retorna como documentário.

A montagem nos entrega a pesquisa de Fabio em dezenas de circos do interior e as entrevistas com as potenciais personagens, sempre numa delicada costura entre o desejo artístico do diretor e a energia criativa própria das estrelas do picadeiro. Madona Show, do Rio Grande do Norte, e Índia Morena, eleita Patrimônio Vivo de Pernambuco, conquistaram de cara seus lugares como intérpretes de si mesmas. São carismáticas até dizer chega. Índia, aliás, tinha tudo para ser uma Dona Sebastiana avant la lettre. Jéssica, infelizmente, não pôde se juntar à trupe da filmagem e foi representada pela atriz Dandara Ohana.

No filme-dentro-do-filme, o topógrafo Ruy – inspirado no pai de Fabio – tem seus supostos encantos disputados pelas três heroínas. Cada uma delas tem seus dramas pessoais, baseados em vivências reais das intérpretes. India tem uma história de traição conjugal. Madona tem um débito familiar do passado. Jéssica é a personagem menos desenvolvida das três.

O que deixou de ser filmado vem agora em curtas leituras do roteiro pelo diretor. Um exemplo tocante desse procedimento se dá na volta de Madona a sua terra natal em busca de saldar o seu débito. Uma cena inesquecível apesar de nunca ter passado pela câmera.

Os retakes, batidas de claquete, bate-papos dos atores a respeito das filmagens e até uma desavença entre Fabio e Murilo, rapidamente absorvida pelo roteiro ficcional, nos colocam dentro do processo criativo do fime que seria e daquele que se tornou. As cartas do tarô, que dão rumo à história, certamente não previram o destino final de Mambembe.

Nem tampouco as três inspiradoras originais, revisitadas por Fabio dez anos depois em reencontros comoventes. Elas são coautoras desse objeto fílmico único, gestado a partir de um fracasso para desmentir o destino. Elza Soares cantando Mambembe, de Chico Buarque, é a coda perfeita para essa adorável saudação às artistas populares.

>> Mambembe está nos cinemas.

 

Deixe uma resposta