Milagres de uma mãe judia

ERA UMA VEZ MINHA MÃE

Taí um filme que não tem vergonha de ser o que é: longo, cheio de clichês sobre as indefectíveis resiliência e superação, codificado ao extremo, superficial e feito para emocionar a família. Ainda bem que o melodrama vem recheado com ótimas pepitas de humor.

Lá está a clássica mãe judia de amor tão extremado que sufoca os filhos. No caso da imigrante marroquina Esther (Leïla Bekhti), a dedicação parece se concentrar apenas no mais novo, Roland, nascido com um pezinho torto que o impede de andar. Aos outros cinco filhos, resta o papel de figurantes. Esther bate o pé e junta as mãos em prece para que Roland tenha uma vida normal, um bom casamento, uma porção de filhos e todas aquelas benesses que as mães judias desejam para sua prole.

Por conta disso ela enfrenta médicos derrotistas, uma professora de balé intolerante e uma assistente social determinada a lhe tirar a tutela de Roland. A sátira a essas instituições é bastante ácida, movida por uma supermãe que se considera a única a zelar pela felicidade do garoto.

Roland, por sua vez, deixa-se contagiar pela paixão por Sylvie Vartan. A veneranda cantora francesa terá papel importante em sua formação e uma participação especial vivendo a si própria, com direito a cantar um de seus clássicos em coro com a família Perez.

O filme se baseia no livro Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan, do advogado Roland Perez, profissão que ele abraçaria depois de passar por dança, teatro e pontas em cinema. Entre ganhos e perdas, teimosias e milagres, a saga dos Perez atravessa quase meio século e três gerações. Tempo suficiente para Roland cobrar liberdade perante o assédio constante da mãe. A ideia é colocar em cena as ambivalências de uma relação mãe-filho descomedida, ainda que guiada pelo amor.

Leïla Bekhti está bem no papel um tanto unidimensional em meio a muitos lugares-comuns do filme familiar. É bem verdade que o diretor e roteirista Ken Scott soube valorizar as tiradas cômicas que levantam o astral de um tipo de história pra lá de Marrakech.

>> Era uma Vez Minha Mãe está em cinemas de São Paulo e de Niterói.    

Deixe uma resposta