Eliezer no trem dos elogios

Eliezer Batista, o Engenheiro do Brasil é um documentário que pisa em ovos.

De um lado, é decorrência comprensível do trabalho do cineasta Victor Lopes com temas ligados à história da mineração do Brasil. Depois de realizar dois filmes para a Vale do Rio Doce, ele mergulhou no projeto grandioso de um filme investigativo sobre Serra Pelada, que deve ficar pronto ainda este ano. No processo, fez também o curta Escola Eldorado, sobre um ex-garimpeiro que entrou para o MST e acabou como uma das vítimas do massacre de Carajás. Aceitou o convite para realizar esta biografia de Eliezer Batista com o propósito de conciliar o filme de encomenda com uma proposta autoral. O desejo de contar parte importante da recente história político-econômica do Brasil, mais o que Victor chama de “dialética do destino”, respondem por essa sucessão de enfoques. 

De outro lado, é uma peça de glorificação. Que Eliezer Batista é uma figura admirável, disso não resta dúvida. O ex-presidente da Vale e ex-Ministro dos governos Goulart e Collor é um homem íntegro, pretensamente apolítico, de inteligência brilhante e ideias sempre além do seu tempo, capaz de se emocionar com sinceridade ao falar de seus trabalhadores. Chegou a ser acusado de esquerdismo nos primeiros anos da ditadura, o que só ajuda a enobrecer o seu perfil. Mas o filme não encontrou outra forma de contar essa história senão através de uma sucessão interminável – e às vezes redundante – de depoimentos laudatórios. Filhos, amigos, colaboradores e parceiros enfileiram elogios como os vagões das longas composições de transportar minério.

Se não chega a ser enfadonho, é porque o diretor domina seu ofício e sabe dosar o pessoal com o profissional, o íntimo com o épico. Mesmo que, para enfatizar esse último aspecto, lance mão de acordes wagnerianos que não se justificam apenas pela nacionalidade alemã da esposa de Eliezer, Jutta Batista. No fim das contas, o talento e a simpatia do personagem, bastante óbvios, ficam um tanto sufocados pelo excesso de ênfase e a voz única do enaltecimento.

Por sua natureza de biografia “autorizada”, o filme passa ao largo dos aspectos polêmicos, por exemplo, do projeto Carajás. O trecho mais complexo e delicado é quando se refere à privatização da Vale no governo Fernando Henrique. Raphael de Almeida Magalhães deixa claro que ele e Eliezer se opunham à venda da empresa, e até FHC se diz “contrário, no princípio”. Na ocasião, Eliezer perdeu a batalha e levou seu paletó de ouro para outros escritórios. A pauta do filme não cobre os recentes ruídos na relação entre o governo Lula, a presidência atual da Vale e o herdeiro mais vistoso de Eliezer, Eike Batista. Mas é possível compreender, para além da conjuntura, como aquela pedra ainda incomoda o sapato da família.

O fato de ser patrocinado em boa parte por empresas que seu personagem presidiu ou ajudou a criar seria completamente natural se isso não fosse feito através da Lei do Audiovisual. O uso do dinheiro público para, em última instância, louvar as virtudes do próprio patrocinador coloca a produção no alvo de cabíveis críticas.  

Por fim, é interessante comparar esse filme com Cidadão Boilesen, a ser lançado na semana que vem. Se Eliezer Batista é um símbolo da capacidade de realização positiva do país, o empresário Henning Boilesen passou à história como uma mancha sombria. Ele foi um dos líderes do financiamento à repressão na ditadura militar. Seu engajamento era tanto que o levava a assistir a sessões de tortura dos prisioneiros do regime. Cidadão Boilesen conta sua história com a isenção possível diante de crimes óbvios. Na semana que vem, voltarei a esse filme de impacto.

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