Inferno do cineasta, paraíso do cinéfilo

Romy Schneider

Enquanto assistia a O Inferno, entre um orgasmo estético e outro, eu ora lamentava: que pena que Henri-Georges Clouzot (1907-1977) não concluiu esse filme maravilhoso; ora exultava: que bom que ele não terminou. Sim, porque o fato de nunca ter vindo às telas como obra acabada ocasionou agora esse resgate de um dos conjuntos de cenas de bastidores mais deslumbrantes do cinema moderno.

Serge Bromberg conta na primeira sequência como chegou por acaso às 13 horas de filme deixadas por Clouzot há mais de 40 anos e nunca exibidas. Bromberg, um renomado especialista em restauração, tomou para si (e para a co-diretora Ruxandra Medrea) a deliciosa tarefa de recontar a história do que seria um dos filmes mais inovadores dos anos 1960. Sua fascinação pelas imagens de L’Enfer é tamanha que mesmo os depoimentos dos colaboradores de Clouzot foram gravados num estúdio em meio a uma instalação com telas que não param de mostrá-las.

Não é para menos. O estudo sobre um homem que enlouquece de ciúme da mulher num pequeno balneário francês foi projetado para ser uma súmula das vanguardas audiovisuais em voga em 1964. Enquanto a realidade era mostrada em preto e branco, os delírios paranóicos do marido eram filmados em cores psicodélicas. Mas até o plano da realidade sofria os efeitos da neurose do ciumento, mediante o uso de efeitos óticos e uma movimentação de personagens e figurantes minuciosamente orquestrada para sugerir a patologia do protagonista.

Talvez como resposta aos luminares da Nouvelle Vague, que o associavam a um cinema de gênero e ultrapassado (O Salário do Medo, As Diabólicas, Crime em Paris etc), Clouzot resolveu integrar a O Inferno a arte cinética, a op art, a música eletroacústica e recursos experimentais na maquiagem e nos figurinos. Trabalhou com inversão de cores, distorções, caleidoscopismo. Explorou, sobretudo, a beleza alpina de Romy Schneider, injetando sensualidade na figura comumente associada à inocência da imperatriz Sissi. As aparições de Romy em cenas e testes, às vezes com os seios à mostra, às vezes com o rosto embebido em luzes e cosméticos alucinados, são a expressão plena de como abordar um ícone cinematográfico em toda a sua extensão.

O documentário põe em destaque também a personalidade de Clouzot, embora não mencione sua passagem por instituições psiquiátricas nos anos 1930. No cinema, ele era um perfeccionista que planejava cada centímetro do campo visual dos seus filmes e exigia sacrifícios dos atores e da equipe. Para L’Enfer, contava com orçamento ilimitado da americana Columbia, os melhores técnicos (William Lubtschansky, um dos diretores de fotografia, e Costa-Gavras, assistente de direção, estão entre os entrevistados do doc), mas não com um projeto inteiramente sob controle. Após três semanas de filmagem e experimentações febris, ele parecia desnorteado. O ator principal, Serge Reggiani, indispôs-se com ele e, fingindo uma doença, abandonou o set. O próprio Clouzot teve um enfarte no meio de uma filmagem, o que foi a gota d’água para a interrupção da produção.

Curiosamente, o processo de criação de L’Enfer evoca a essência do argumento de Oito e Meio de Fellini, o filme que marcara Clouzot um ano antes e certamente mobilizava seu apetite pela narrativa anticonvencional e pelo tema da desestabilização. O risco de paralisia que o Guido de Fellini corria atingiu de verdade Clouzot. E o inacabado L’Enfer passaria à história do cinema francês como um filme maldito.

Clouzot e Romy

Esse doc restaura um bocado do prazer que o filme teria proporcionado à plateia, com a vantagem de mostrá-lo por dentro, nas experiências magnetizantes desenvolvidas por Clouzot e nos divertidos exercícios com os atores. Quando se trata de reconstituir fragmentos de sequências, isso é feito com uma edição sonora muito sugestiva e um senso de fetiche que não passa despercebido. O único elemento que destoa um pouco são os diálogos reencenados pelos atores Bérénice Bejo e Jacques Gamblin, roteiro em mãos. É um acréscimo apenas funcional, propositalmente despojado, e que por isso mesmo quebra o fluxo de encantamento das cenas originais.

Peça de cinefilia de primeira grandeza, L’Enfer d’Henri-Georges Clouzot recupera também o interesse por um cineasta meio esquecido e completamente desconhecido das novas gerações. Pelo menos cinco de seus clássicos foram lançados em DVD no Brasil. Os thrillers de Clouzot lhe valeram o epíteto de “o Hitchcock francês”, que também foi aplicado a Claude Chabrol. O mesmo Chabrol que filmaria o roteiro de L’Enfer em 1993, com Emmanuelle Béart e François Cluzet. O filme foi lançado no Brasil como Ciúme: O Inferno do Amor Possessivo.

Para terminar com uma nota não menos conjugal, vale lembrar que Clouzot foi casado com a carioca Vera Gibson-Amado, cuja carreira de atriz limitou-se a três filmes do marido: Salário do Medo, As Diabólicas e Os Espiões

2 comentários sobre “Inferno do cineasta, paraíso do cinéfilo

  1. Pingback: Meus filmes do ano « …rastros de carmattos

  2. Tambem durante a exibiçao deste filme via-me diante do inferno: pena que ele não acabou o filme! Ainda bem que não acabou…A beleza deste L’Enfer mistura-se a beleza do documentario, eles fazem uma simbiose e consegue nos levar ao inferno pessoal do “Oito e Meio” de Clousot. E Romy Schneider? Coisa de louco!

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