Entre lobos e homens

WOLFWALKERS no streaming

Uma das melhores animações do ano vem da Irlanda. Vem de lá não somente porque é realização do estúdio Cartoon Saloon, da cidade de Kilkenny, mas porque se assenta nas lendas de lobisomens que povoam a mitologia celta e até certos relatos históricos. Os lobisomens irlandeses não se transformam nas noites de lua cheia, mas seus espíritos abandonam os corpos durante a noite em forma de lobos enquanto seu formato humano continua dormindo tranquilamente.

Wolfwalkers é o terceiro filme da trilogia de Tomm Moore e Ross Stewart sobre o folclore irlandês. Foi antecedido por Uma Viagem ao Mundo das Fábulas (2009) e A Canção do Oceano (2014), ambos indicados ao Oscar. Desta vez a dupla deve voltar a disputar a estatueta, provavelmente com Soul, da Disney/Pixar. Um dado curioso é que ambos os filmes tratam de espíritos em trânsito entre dimensões diferentes.

A história se passa na mesma Kilkenny em 1650, quando a cidade se via ameaçada por uma matilha de lobos selvagens. O Lorde Protetor, inspirado no líder militar inglês Oliver Cromwell (1599-1658), convoca o exímio caçador Bill Goodfellowe para dizimar os animais e liberar a floresta para ser desmatada e convertida em plantações de subsistência. Robyn, a intrépida filha de Bill, insiste em acompanhar o pai e acaba travando conhecimento com o mundo dos wolfwalkers, lobisomens (melhor dizendo, lobimulheres) com poderes mágicos e liderança sobre os lobos comuns. Junto a sua nova amiguinha lobigarota, ela vai procurar uma saída pacífica para as duas espécies.

A aventura tem um fundo metafórico sobre a história da Irlanda. Os lobos representam o espírito indomável da Irlanda pré-colonial. Cromwell foi figura instrumental no projeto de “modernização” do país mediante o combate à monarquia, ao catolicismo romano e às superstições populares. No filme, o Lorde Protetor ainda acumula a vilania muito contemporânea de Nero da floresta. A pequena Robyn, ao se transformar numa wolfwalker e passar de caçadora a caçada, experimenta os dois lados da situação colonial.

Mas é preciso dizer que esse subtexto histórico não pesa sobre a pura fruição do espetáculo. E que espetáculo!

O estilo de animação tradicional desenhada à mão traz influências dos japoneses do Estúdio Ghibli, mas enfatiza ainda mais o traçado artesanal das linhas. É um filme acintosamente desenhado à mão. Basta congelar as imagens para reparar. A palheta de cores é extraordinariamente viva. O desenho distingue os dois ambientes entre os quais transitam os personagens centrais: a cidade é chapada, feita de traços duros, expressão do lugar da ordem, da autoridade e do aprisionamento. A floresta, por sua vez, tem profundidade e linhas sinuosas, índices de liberdade e magia.

Para as plateias familiares, Wolfwalkers tem ingredientes certeiros. Afinal, trata-se de uma história de pais e filhos que se desdobram para salvar uns aos outros. A narrativa flui lindíssima até o ato final, quando a ação se acelera e os elementos mágicos se tornam aleatórios demais. A meu ver, é o que deixa Wolfwalkers um degrau aquém do céu das animações.

>> Wolfwalkers está na Appple TV Plus

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