A próxima obra-prima

Costumo ser comedido nas minhas opiniões sobre o cinema brasileiro. Há entre os críticos aquele dilema permanente entre ser complacente, exaltar o bom além da conta, e ser rigoroso demais, cobrando de cada filme todas as insuficiências de uma cinematografia. Mas às vezes é preciso reconhecer quando se está diante de uma obra-prima. Não pestanejei em dar esse qualificativo a Lavoura Arcaica quando vi o filme pela primeira vez, num DVD que Luiz Fernando Carvalho me confiou. Nem a Santiago ou Jogo de Cena, quando seus diretores fizeram o mesmo. Nem a Cidade de Deus e Serras da Desordem, quando os vi em sessões para a imprensa.

Estou agora diante de outra sensação semelhante. Assisti nesse fim de semana ao primeiro longa de Eduardo Nunes, Sudoeste. Foi numa cópia em DVD offline, em baixa resolução, sem edição de som e sem a trilha sonora original. Ainda assim, fiquei com a nítida impressão de estar diante de um filme extraordinário. Um filme de exceção no cinema brasileiro, seja pela atmosfera quase extraterrena (Paulo Halm brinca que este é “o mais belo filme eslavo já feito no Brasil”), seja pelo rigor das composições e a sublime plasticidade da fotografia em preto e branco de Mauro Pinheiro Jr.

Não quero antecipar muito para não estragar a justa expectativa em torno do filme. Mas posso dizer que se trata de uma história mágica, que esculpe o tempo como um quase-círculo, cujas pontas, em vez de se encontrarem, se tangenciam e se prolongam misteriosamente. Uma menina fica órfã ao nascer e tem toda a sua existência, da infância à velhice, sintetizada num único dia, o da Folia de Reis. No seu papel, sucedem-se a pequena Raquel Bonfante, Simone Spoladore e Regina Bastos. O caminho de sua curta-longa vida parece repetir o da mãe. Ambos são irmanados por um segredo de família que ninguém consegue articular, mas fica claro para o espectador.

Eduardo Nunes é o premiado autor de curtas compassados e reflexivos como Terral, Tropel, Reminiscência e Duas da Manhã. Sua admiração por cineastas como Tarkovski, Dreyer, Terence Davies e Mário Peixoto podia ser ocasionalmente visível naqueles trabalhos, mas nunca pensei que pudesse inspirar tamanho controle de mise-en-scène, espaços, ritmos e tonalidades. Sudoeste foi filmado numa janela pouco comum (3.66), que sublinha a horizontalidade das locações em Arraial do Cabo e gera enquadramentos de estonteante beleza.

Por enquanto, vá curtindo os frames (em baixa definição) que botei aqui. Nos cinemas, só em 2011.

14 comentários sobre “A próxima obra-prima

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  3. No Festival do Rio o filme teve todos os problemas possíveis de projeção: erro de foco, três interrupções (a última delas definitiva, cancelando a exibição), janela errada (entre a 1ª e a 2ª interrupção), som com problemas (ouviam-se ruídos metálicos a partir de uns 20-30 minutos)…. Uma pena. Um desrespeito com o realizador e com a platéia. Era o filme que eu mais esperava nesse festival… E ainda não há previsão de sessão extra.

      • Não. No Odeon, dizem, a sessão foi normal. Este episódio que eu citei foi no Roxy, na sessão das 14h deste domingo. Na hora não se sabia se o problema havia sido na fita ou no projetor. Os projecionistas falaram que outros filmes falharam lá, como Mãe e Filha, do Petrus Cariry.

  4. Nossa, a janela me impressiona! a estória me parece instigante, e, interessante. fiquei super curioso! vou esperar com ansiedade.
    pelos frames, a fotografia deve fala muito, além o enredo!

  5. É verdade, Gus, os amigos participaram muito deste filme, vc, Tunico, Camilowsky, Pepê, Américo… e a nossa Pitinguinha, uma super inspiração!!

    Abraços,
    bella

  6. Izabella, ele não manteve só a equipe que tinha em seus curtas e em seu projeto original, como também os amigos que viram esse projeto nascer.

    tenho imensa felicidade de ter visto o filme numa sessão teste e ter mostrado para alunos meus para ajudarem com idéias na montagem. Aqui dois links de uma conversa com o edu após a sessão que tivemos no ap de são francisco (com a presença da saudosa Pitinga) http://www.youtube.com/watch?v=4n-6zzKS8FQ

    Carlos Alberto, mais uma vez a tua sensibilidade visionária nos premia. Torcemos todos para que estejas certo!

    abraços, gus

  7. Conheço o projeto desde as primeiras discussões, acompanhei a saga dos editais e concursos e encontrei recentemente Eduardo que proferiu o melhor comentário depois disso tudo: “já que poucos vão se interessar, para que fazer concessões? Vou fazer o filme que quero fazer, no qual acredito: tem mais de duas horas de duração e é em preto e branco!” Eduardo é sensacional, mega guerreiro, não desistiu, conseguiu e vai arrebentar!

  8. Eduardo Nunes com certeza realizaria um longa de exceção e beleza. É visível nos curtas e na figura que fala baixinho, cadenciando as palavras que a delicadeza é uma questão importante para ele, tematica e esteticamente. Viva Eduardo Nunes, viva o cinema brasileiro!

  9. E dá uma dor no coração só em imaginar que o diretor ficou mais de dez anos peregrinando em vão até conseguir recursos para realizar esse filme, sem nunca desistir do projeto original, mesmo com a expressiva trajetória de seus curta-metragens. Um “filme eslavo” como esse não conseguiria captar recursos pelas engessadas leis de incentivo, e Nunes bateu em vão na Petrobras, BNDES, etc, até que, mais de 10 anos depois e de várias tentativas, ganhou o edital de BO do MinC…

    • É Marcelo, e tem um dado bacana tb, o Edu manteve a mesma equipe dos curtas, Mauro Pinheiro Jr, Flavio Zettel, na montagem, e o André Weller, na direção de arte… E ontem assistimos a primeira vez com a edição de som, é quase uma onda lisérgica, os sons do vento dão uma dramaticidade perturbadora, é um filme diferente de tudo que já vi, o PP tem razão!

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