Na rota de Cabo Verde

A África está mesmo me chamando. Eu estava na Suazilândia, no mês passado, quando abri o e-mail de Joel Zito Araújo. Ele me convidava para dar um pequeno curso em Cabo Verde. Era o módulo Crítica de Cinema da pós-graduação em cinema e audiovisual do Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura, na cidade de Mindelo. O curso é uma parceria com o Brasil através da ONG Projeto Legal. A turma de 35 alunos compreende caboverdianos, portugueses, moçambicanos e brasileiros.

Nunca pensei em lecionar crítica de cinema. No fundo, acho que isso não se ensina, aprende-se no fazer, no trânsito da cinefilia entre o coração e o cérebro, no refinamento da sensibilidade e no gosto pelo texto. Afinal, a crítica para mim é um gênero literário, no qual sou eterno aluno. Mas não resisti à oportunidade de conhecer Cabo Verde, e estou embarcando hoje via Lisboa. A viagem é uma áfrica (epa!). Chego em Lisboa amanhã por volta do meio-dia. Fico pela cidade até as 22h, quando pego outro avião para a Ilha do Sal, onde passarei a noite de amanhã. Na segunda cedinho voo do Sal para a Ilha de São Vicente, onde está o Mindelo.

Adoro a expressão “o Mindelo”, como aqui se fala “o Recife”. Creio que é a mais bonita cidade do arquipélago, com suas rochas vulcânicas emoldurando o cenário de praças tranquilas, ruas coloridas e porto pesqueiro. Leão Lopes, o reitor do Instituto, é o cineasta mais famoso do país, responsável por um dos poucos longas-metragens autenticamente caboverdianos, Ilhéu de Contenda (1996). Leão realizou também o doc Bitú, que andou passando por aqui em algum festival e retratava poeticamente o Mindelo através dos pintores locais. Recentemente, vi o DOCTV Eugênio Tavares, Coração Crioulo, sobre o poeta mais querido de Cabo Verde. De resto, lembro-me do país somente como locação de filmes portugueses, entre eles Casa de Lava, de Pedro Costa, e a coprodução brasileira O Testamento do Senhor Napomuceno, de Francisco Manso.

O curso de especialização coordenado por Joel Zito já levou Paulo Betti, Orlando Senna, Claudio MacDowell, David Tygel, Assunção Hernandes, Cleumo Segond e o animador César Coelho, entre outros brasileiros. Meu módulo é o último do curso, que se encerra na sexta-feira. Vou falar da minha experiência, meus métodos de trabalho (sim, eles existem!), dos críticos que admiro, e discutir o momento atual da crítica entre a imprensa e a internet. E, nas horas vagas, ouvir as mornas, funanás e o chiado bom da língua crioula; saborear as cavalas, monchupas e frigenotes; repousar a vista sobre a palheta das ilhas e a infinidade do Atlântico.

P.S. Dizem que este blog está virando um blog de viagem.

4 comentários sobre “Na rota de Cabo Verde

  1. Seus relatos são encantadores, acompanho com o prazer de quase prová-la também, tamanha verdade que transmitem.

    Sucesso, boa viagem!

  2. O blog do Carmattos tá melhor que o Lonely Planet. 🙂
    Aproveite bastante Cabo Verde e traga mais relatos bacanas!
    Beijo

    P.S.: ainda tô digerindo o novo layout. Sinto falta daquele amarelão lá do cabeçalho. Mas com o tempo, acostumo.

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