Investigando as UPPs

Barack Obama foi o primeiro a receber das mãos do Governador Sérgio Cabral os quatro DVDs sobre as UPPs, em sua visita ao Rio, em março. No verso da caixinha, o slogan “A model for public security”. Mais recentemente, os curtas abriram o Festival de Cinema Brasileiro de Paris com pompas oficiais. Ou seja, os documentários produzidos pela empresa de Cacá Diegues, na esteira do relativo êxito de 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos, são os filmes oficiais das Unidades de Polícia Pacificadora.

Não há nada de desabonador nisso. O projeto das UPPs merece ser exportado. É a melhor coisa que poderia ter acontecido no Rio de Janeiro. Não só porque tem sido implantado com competência, mas também  por se abrir para uma permanente discussão, como a que se vê nesses docs. É bem verdade que todos eles se concluem com notas de aprovação do projeto, evidenciando um princípio de estruturação basicamente positivante. Mas nenhum deixa de problematizar aspectos ainda passíveis de debate e melhoramento nas UPPs.

A série é um misto de trabalho coletivo e investigação individual. Algumas entrevistas e discussões reuniram os quatro diretores, todos oriundos de comunidades pacificadas, além de outros colaboradores envolvidos no 5 x Favela. A cada diretor coube explorar um ângulo da experiência num doc de 25 minutos.

Rodrigo Felha, que teve um famoso incidente com um policial no passado, tomou o (segundo ele) “desafio” de documentar o ponto de vista da polícia. Investigou as mudanças de hábito dos policiais, a difícil quebra dos estereótipos de confronto e as táticas de treinamento do BOPE para favelas. Luciano Vidigal, que tirou um irmão do tráfico, ficou responsável pelo ângulo dos bandidos. Mas como se supõe que em favela pacificada não há mais bandidos, Luciano ocupou-se de quem trocou o tráfico por uma vida digna. A chegada das UPPs seria determinante para que muitos jovens procurassem empregos decentes, ainda que com renda bem menor que a auferida no “movimento”. O Projeto Empregabilidade do AfroReggae está promovendo a absorção dessa mão-de-obra.

A opinião dos moradores do morro ficou a cargo de Cadu Barcelos. Ele desvendou com brio as vielas de uma relação ainda difícil entre moradores e policiais. Recolheu queixas e elogios quanto ao controle do cotidiano das comunidades pelas UPPs, assim como colocou em debate o papel do estado no suprimento das lacunas “sociais” deixadas pela saída do tráfico. No quarto episódio, Wagner Novais tentou dar conta da visão do asfalto. Foi o menos feliz no resultado, limitando-se a repercutir ideias de outros episódios e a abordar timidamente o novo turismo nas favelas e a expectativa de segurança nos bairros de classe média.

No fundo, a especificidade de cada curta importa bem menos que o conjunto. Eles são como peças de encaixe que formam uma figura. A figura de comunidades como não se imaginava cinco anos atrás. A presença dos realizadores dentro da cena, quase como personagens, com suas ênfases e distanciamentos conforme os níveis de interlocução, serve como um comentário a mais sobre a inclusão sócio-cultural numa cidade que tenta mudar sua paisagem.

3 comentários sobre “Investigando as UPPs

  1. Pingback: Favela dos meus amores | ...rastros de carmattos

  2. Então quer dizer que você assistiu ao doc, Mr. Carmattos! Inveja branca. Esses dias perguntei justo deste doc ao Wava (Wagner Novais) e ele me disse: vai ter que esperar pra assistí-lo. 🙂 Estou com muita curiosidade.

  3. Passando por aqui para dar sinal de vida e saber notícias do amigo. Como estão as coisas? Você me acostumou mal. Quando a gente fica muito tempo sem se falar, o alerta vermelho da negligência imperdoável começa a soar.
    Abraços!

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