A crítica como processo

Resenha publicada em O Estado de S. Paulo de 1.10.2011 com o título “Lições de cinema e crítica”

Saiu a imagem de Pereio com o revólver na boca em O Bravo Guerreiro e entrou uma arte meio psicodélica com desenhos de pupilas. Afora essa atemporalização da capa e o novo prefácio de Luiz Zanin Oricchio, nada mudou na nova edição, pela Martins Fontes, de Trajetória Crítica, lançado primeiramente em 1978 pela editora Polis. Fiel ao compromisso com o reexame de sua própria evolução como crítico, Jean-Claude Bernardet manteve os erros gramaticais e de má tradução dos textos originais, sobretudo os mais antigos. Afinal, o belga Jean-Claude explica que aprendeu o português justamente escrevendo sobre cinema.

O livro é a expressão de um aprendizado que aos poucos se transforma em ensino. Característico do método crítico de Bernardet é o voltar-se sobre si mesmo. Examinar-se enquanto examina a obra, já que é na relação com o espectador e o crítico que a obra se completa. Esse movimento, presente em boa parte de seus textos para jornais e revistas, se potencializa aqui pela análise que ele empreende da sua própria produção crítica entre os anos de 1960 e 1974. O período foi marcado pelo golpe de 64, o recrudescimento de68, aeclosão do Cinema Novo e sua transformação em empreendimento, a floração do Cinema Marginal. Tudo isso repercute nas páginas do livro.

Temos, portanto, a autocrítica do jovem CCC (“crítico cinematográfico colonizado”, denominação que ele mesmo se atribui) e a gradual rejeição da atitude contemplativa diante dos filmes, das expressões francesas e das referências culturais diletantes. Para Bernardet, os anos 60 eram uma fase pródiga também em declarações de amor ao cinema e ao movimento, o que vai mais tarde ceder lugar a manifestações de afeto menos efusivas e mais complexas, daí não menos profundas.

Os “papéis” vividos e sistematicamente criticados pelo autor dizem muito sobre as variações e pretensões do trabalho crítico em geral. De decifrador de símbolos, vemo-lo passar a orientador, contestador, conscientizador, analista de estruturas narrativas e, por fim, propositor de metodologias para seus colegas e alunos. O que muda com o tempo é a predominância desse ou daquele “papel”, já que, de alguma maneira, todos sempre conviveram na sua forma de pensar.

Talvez essa Trajetória Crítica se comunique melhor com críticos e espectadores críticos do que com um público apenas superficialmente interessado em filmes. Para quem se formou na crítica de cinema nos últimos 50 anos, os textos de Bernardet trouxeram posturas e métodos fundamentais para se aprofundar e sofisticar o ofício. O crítico, a seu ver, não é um juiz do processo cultural, mas parte dele. E não apenas porque Jean-Claude atua como cineasta, roteirista, dramaturgo e autor literário, mas porque a crítica lhe aparece como interlocutor essencial na produção de cinema, inclusive a futura. Para que esse diálogo se estabeleça plenamente, é importante relacionar os fatores estéticos dos filmes com seu modo de produção e com o contexto político-social. A mera abstração filosófica ou sociológica é banida em troca de uma abordagem muito concreta das obras, frequentemente em interrelação com outras obras, sejam elas filmes ou não.

Parte da evolução desenhada no livro é a concentração progressiva do foco no cinema brasileiro, que Bernardet vê como um grande corpo de significações, bem ao contrário do clichê de que tudo por aqui são surtos. Estudar o cinema brasileiro era então para ele examinar a luta de classes no campo estético, o que pode soar como uma redução arriscada. Mas suas análises aproximativas entre filmes de épocas, gêneros e graus de popularidade diferentes tinham, em sua época, um valor de descoberta realmente inspirador. E continuam tendo hoje, face à superficialidade e à despolitização de grande parte do cinema e da crítica no Brasil.

Mesmo que não concordemos com um ou outro viés da análise de Bernardet, é preciso reconhecer o poder de seu discurso crítico, baseado numa profunda clareza e no instrumental rigoroso. Ele é peremptório ao afirmar que a crítica deve ser um exercício flutuante, sem vocação para grandes conclusões. Daí seu apego a termos como “contradições” e “tensões”, capazes de afastar o risco das ideias prontas e dos julgamentos definitivos. No livro, os comentários que sucedem ou introduzem cada texto ampliam esse efeito de flutuação provocado pela passagem do tempo, o surgimento de outros filmes e os avanços do método. É a crítica como processo, na sua melhor acepção.

Mas é preciso considerar também que esta é a versão que o próprio Bernardet oferece de seu itinerário naqueles anos. Ele selecionou os textos e assim construiu uma imagem de si mesmo que se afigura evolutiva e coerente. Instruídos por ele, poderíamos perguntar pelas errâncias, reincidências e hesitações que teriam sido eliminadas nessa autocuradoria. Talvez fosse esse um pedido despropositado, impossível de atender na prática. Mas seria o corolário dessa demanda exigente e quase insaciável que Jean-Claude Bernardet coloca ao cinema.

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