Gênero: Homem. Forma: Yuka

Especialmente para o blog, Patricia Rebello escreve sobre Marcelo Yuka no Caminho das Setas, documentário que entra hoje em cartaz:

Em 1996, a faixa de número seis do álbum Rappa Mundi lançava no ar o seguinte verso:

“Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé”

A letra de Pescador de Ilusões fala do paradigma do saber que nasce do gesto de abrir mão de uma crença e de questionar a disciplina; do conhecimento que desabrocha fora de uma noção de que é preciso pagar um pedágio que vem na forma de sofrimento, expiação do corpo, e de um contrato que delimita o imaginário a uma cartilha de regras. Naqueles meados de década, ainda tentando se recuperar do impeachment do presidente que havia prometido soprar pra longe as nuvens escuras do passado recente, O Rappa se notabilizou pela criação de letras que, muito mais que manifestos, mandavam recado para uma nova geração, de que o negócio não era buscar por respostas certas e finais felizes, mas “ousar catar na superfície de qualquer manhã as palavras de um livro sem final”. Não esperar por uma redenção, mas por uma briga cotidiana com os processos dialéticos da vida.

Por isso, Marcelo Yuka, baterista da banda (com a qual iria romper no final de 2001) e seu principal letrista, iria odiar este texto se ele começasse falando da trágica coincidência entre aquilo que era pregado nas letras (e que ele continua recitando, agora em carreira solo) e a condição na qual se encontra hoje; da ironia de um destino que virou o feitiço contra o feiticeiro, como diz o ditado, e que fez o pregador colocar à prova sua própria cartilha. A vida é curta para este tipo de teoria, e é precisamente essa dimensão estóica, que parte do presente e das flechas que a partir dele são disparadas, que dá o tom de Marcelo Yuka no Caminho das Setas.

Daniela Broitman, diretora do documentário, começou a filmar Yuka em 2004, quatro anos depois da noite em que o compositor foi alvejado durante uma tentativa de assalto e perdeu os movimentos das pernas. A câmera de Daniela aposta na observação como método, mas em momento algum se pretende invisível. Ao contrário: enquanto acompanha sessões de fisioterapia, as gravações do primeiro disco solo, apresentações, encontros e parcerias musicais (como a sessão com o músico francês Manu Chao) e palestras em presídios, o filme denuncia um contrato de parte a parte. Marcelo Yuka é categórico em seu desejo de excluir do documentário qualquer manifestação de condolência a sua condição de cadeirante; é renitente à construção de uma imagem redentora, como tentou a mídia à época do acidente (e como ainda tenta por vezes), ao associar sua figura e sua fala a um discurso político sobre a violência. O documentário, por sua vez, respeita esse desejo duplamente: ao incluir as cenas onde isso é enunciado e, em muito maior escala, ao construir um personagem e contar uma história que caminham em sentido diametralmente oposto a este.

Tempo e dor são duas noções que a montagem – uma bela parceria entre Daniela e a montadora Jordana Berg – articula para dar a ver a trajetória de Yuka ao longo dos últimos dez anos (ou pouco mais). Mas o faz de forma que eles não sejam percebidos como pares indissociáveis de um processo: nem o passar do tempo tornou a dor aceitável, nem a dor renovou a maneira de experimentar o tempo. Cada dia é um dia. Apenas isso. E desse contrato entre a diretora e seu personagem surge a figura de um anti-herói, alguém atropelado por um acidente, e que continua tocando a vida independente disso. Alguém, enfim, com quem o espectador acaba se envolvendo, se identificando, justamente porque se encontra na sua recusa em encenar o drama, na recusa do gosto pela cena medíocre e banal do cotidiano.

Apesar de começar a ser filmado quatro anos depois do acidente, Marcelo Yuka no Caminho das Setas retroage até o momento em que essa história aconteceu, estabelecendo ali o seu ponto de partida. Com muita habilidade, sem cair nunca no sensacionalismo, Daniela passa pela disseminação da notícias pelos meios midiáticos, os problemas com a banda O Rappa (que levaram, no limite, ao rompimento) e a retomada da carreira, desta vez solo. Talvez à custa de uma nova experiência do corpo, uma nova sensorialidade atravessando a forma como vive o cotidiano, as performances de Yuka parecem, depois do acidente, investir bem mais na experiência, na produção que parte do improviso, na relação vital que ele desenvolve com a plateia. Mas isso é só especulação. E ele não iria gostar de ler isso.

Patricia Rebello

Leia também meu texto publicado há um ano sobre o filme, por ocasião do Festival do Rio

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