Retrospecto da “Semana”

Na sessão de premiação da Semana dos Realizadores, certamente a mais vazia de um evento que lotou a sala 1 do Espaço Itaú de Cinema em quase todas as sessões de filmes, Lis Kogan, diretora da mostra, afirmou que a Semana está no tamanho e no formato que ela deseja. Ou seja, uma mostra pequena, voltada para filmes de uma faixa mais ou menos específica da produção nacional: produções independentes, realizadas por cineastas jovens ou muito jovens e alguns veteranos eleitos como gurus.

A seleção se justifica plenamente, e até compreendo quando filmes bem ruins são programados com base em relações de amizade e de acompanhamento de carreira. Mas gostaria de ver essa mesma mostra se abrindo para um pouco além do seu gueto, até como forma de ampliar o público daqueles filmes – e muitos deles têm grande potencial para isso.

A Semana é uma simpatia só. A direção a conduz com um misto ideal de informalidade e eficiência, as projeções no cinema do Adhemar são excelentes (e justamente elogiadas pelo júri), o público comporta-se com civilidade na sala de cinema, há filmes adoráveis, debates objetivos e um clima de congraçamento muito bacana. Na medida do possível, seria bom estender essas qualidades a mais gente, mais uma ou duas salas. Um patrocinador inteligente bem pode viabilizar isso a partir do ano que vem, sem necessariamente alterar o diapasão dessa música.

A seguir, vou reunir os pequenos comentários que postei dia a dia nas redes sociais. São impressões pessoais, rápidas e possivelmente provisórias dos filmes, no calor das horas após cada sessão.

22 Nov
A Semana dos Realizadores começou muito bem ontem com o naturalismo poético de ELES VOLTAM. Marcelo Lordello conta uma história mínima, mas de tal maneira transversa, envolvente e surpreendente que ficamos permanentemente conectados. Há alguma coisa de miraculoso naquelas atuações interiorizadas, naqueles planos incomuns do grande Ivo Lopes Araújo, naquela relação tão intrigante entre atores e espaços. Conta-se o aprendizado de mundo e o despertar da consciência de uma adolescente, mas isso vem da forma mais sutil possível. O que vemos o tempo todo é a vida simplesmente passar para ela, enquanto um mundo paralelo se expande em nossa imaginação. Que beleza de filme!

23 Nov
O doc EM BUSCA DE UM LUGAR COMUM, de Felippe Schultz Mussel (Prêmio Distrital, Cine y Otros Mundos), foi ovacionado pela visão particular que oferece do Rio: os favela tours. O filme acompanha alguns grupos de estrangeiros em passeio à Rocinha e uma visita de prospecção de uma empresa de turismo à Cidade de Deus. Vemos então como se fabricam e se perpetuam certos clichês sobre a cidade e como se instrumentaliza o cenário para a indústria. Ri-se muito com a retórica dos guias e a ingenuidade dos turistas, mas duvido que para muitos de nós esta não seja a incursão mais profunda já feita a um lugar como a Rocinha. O filme é ótimo, especialmente quando usa footage dos turistas, à la “Pacific”, ou quando deixa a câmera demorar-se nos lugares após a saída dos gringos.

o que se moveO clima mudou muito com O QUE SE MOVE, de Caetano Gotardo (Prêmio de Melhor Longa), uma visita sóbria e penetrante à dor de três mães pela perda de seus filhos. O filme me conquistou num crescendo a partir de um primeiro episódio claudicante, um segundo mais bem resolvido e um terceiro absolutamente climático, que nos faz sair do cinema com a alma em frangalhos. O estilo varia entre um naturalismo quase televisivo e choques de atmosfera que podem lembrar Lars Von Trier. Cada episódio se conclui com uma mãe entoando lindamente uma canção, numa das ideias mais originais e comoventes que vi ultimamente no cinema. Uma tristeza linda, como bem colocou a produtora Sara Silveira.

24 Nov
Vi na Semana dos Realizadores os longas RUA APERANA 52 e OTTO. Ambos são filmes “grávidos”.

No primeiro, Julio Bressane está grávido de si mesmo. Um diretor cheio de si, para quem basta reunir imagens de sua vida e de sua obra para oferecer como filme. RUA APERANA 52 justapõe fotos de família em table top caseiro e cenas de muitos de seus filmes passadas na sinuosa ladeira do Alto Leblon com sua vista para o mar. É curioso verificar essa fixação topográfica em sua obra, mas a mera evocação daquelas imagens e canções, sem um novo aporte reflexivo, fica limitado a um interesse puramente fetichista – do próprio diretor e dos que incensam sua obra acriticamente.

OTTO me pareceu em tudo o contrário. Cao Guimarães está grávido de amor por sua Florência, que estava grávida de Otto. O que vemos é um filme doméstico “de artista”, repleto de minúcias fotográficas, microperformances, vinhetas encantatórias, poemas audiovisuais da imbatível união Cao-O Grivo. Da concepção do bebê na Turquia (Ottomano?) ao parto em Belo Horizonte, testemunhamos um canto de amor que nunca derrapa na autocomplacência nem no auto-elogio. Cao filmava para si e ao mesmo tempo para os outros. Um cineasta grávido de outros e na busca permanente da beleza. Nada no cinema pode ser mais generoso do que isso.

25 Nov
Uma sessão memorável de ESSE AMOR QUE NOS CONSOME com a presença de Rubens Barbot, Gato Larssen e membros da sua companhia de dança. O filme de Allan Ribeiro encena coreografias, ensaios e cotidiano num mix irresistível. A rotina (?) do grupo num casarão da Lapa, ameaçado de despejo e de penúria material, é vivida com doçura, entre a realidade e a poesia. A dança e a performance brotam da vida corriqueira como flores do asfalto. O Centro do Rio, como no “Transeunte” de Eryk Rocha, faz-se cenário de caminhadas, trocas e afetos. É a cidade habitada, mais que instrumentalizada. Um filme intimista e delicado sobre artistas que não abrem mão de sua dignidade.

Já o diretor de CORES, Francisco Garcia, enfatizou na apresentação que seu filme era “muito paulistano”. Fiquei pensando: Será pelo cenário inóspito? Será pela noia dos três personagens, ociosos ou empregados infelizes que cedem cada vez mais a um niilismo autodestrutivo? Ou será pela sofisticação visual e o estardalhaço sonoro bem acima das necessidades dramatúrgicas? Um poster de “Stranger than Paradise” e outro de “Frankenstein” podem ser pistas para se decifrar aquelas vidinhas chapadas de quase-zumbis esparramados na tela panorâmica. Tem ali um vazio com ecos gusvansantianos, mas nada que tenha me mobilizado de verdade.

O curta CHARIZARD, de Leonardo Mouramateus (Prêmio de Melhor Curta), tem uma trama meio obscura, mas se sustenta na experimentação com o corpo dos atores e, ainda que sutilmente, se inspira na forte cena atual da dança em Fortaleza, da qual participa também o diretor.

26 Nov
ELENA é um filme lindo – é o que todos dizem, é o que todos acham. Petra Costa relembra a curta vida da irmã mais velha com uma ternura infinita e uma estrutura espiral em que ela e Elena se contemplam, se misturam, se confundem. É tanto sobre a lembrança quanto sobre a necessidade de esquecer – e isso é o mais duro para qualquer perda. É sobretudo um filme sobre teatro, representação, esse deslizamento misterioso entre ator e personagem. Um filme lindo, mas que em dado momento começa a ficar um pouco lindo demais. É muito difícil opinar sobre projeto tão pessoal, mas, enquanto assistia, eu pensava que talvez um pouco menos de “beleza”, um pouco menos de narração, um pouco menos de música linda fizesse muito bem a ELENA. Sei lá… Medidas e fases da lua, cada um tem a sua.

Já para LACUNA, de André Lavaquial, minha medida foi bem problemática. Não consegui estabelecer uma mínima relação com um filme composto de ideias desencontradas, amadorismo de patota e um tipo de edição de som que virou doença contemporânea: sessões de esporro sonoro para fingir que imagens muito banais são extraordinárias. Os aplausos na sessão mostraram que havia ali admiradores, ou quando nada muitos amigos generosos. Eu, infelizmente, não estava entre eles.

Os curtas continuam fazendo água na Semana. Ontem foram exibidos dois exercícios esquálidos de tão minimalistas. VERSÃO FRANCESA, de Maya Da-Rin, usa o anoitecer numa cidade como pano de fundo para uma conversa de casal refletida em plano único numa janela. Ecos das imagens de Chantal Akerman e dos textos de Marguerite Duras. Ouvi dizer que todas as falas foram tiradas de filmes franceses, mas isso não me ajudou em nada. Do Acre veio MASKS, de Lorena Ortiz, lento escrutínio de uma imagem de mascarado carnavalesco com sons de selva e cantos indígenas. Ficaria melhor num ambiente de instalação que numa sala de cinema.

27 Nov
BOA SORTE, MEU AMOR é mais um triunfo do cinema pernambucano. Uma história de amor um tanto vaga serve para dar eixo a um pensamento sobre o arcaio e o contemporâneo em Pernambuco. Nesse pêndulo entre o passado de latifúndio e vendettas rurais, e o presente de especulação e banalização urbana é que se dá a boa dramaturgia pernambucana atual. Pode ser que os personagens de Daniel Aragão não se firmem totalmente como criaturas humanas palpáveis, mas a força cênica deles é tão grande que a gente acaba comprando suas questões. Imagens e sons de primeira, um leve absurdo temperando o jeitão nouvelle-vague, situações construídas e apresentadas de maneira surpreendente, uma fragmentação que pauta nosso interesse para cada cena que se segue. E sobretudo uma atriz maravilhosa, Christiana Ubach, capaz de siderar as plateia com seus solos, seja em silêncio, seja falando com aquele sotaquezinho pernambucano forjado em voz carioca. Boa sorte, Christiana.

O curta MONUMENTO, de Gregorio Graziosi, explora sem grandes voos detalhes do Monumento às Bandeiras, marco da cidade de São Paulo. A duração semelhante de quase todas as tomadas, combinada a paisagens sonoras um tanto planas, faz com que a monotonia rivalize com a beleza.

28 Nov
A BALADA DO PROVISÓRIO, de Felipe David Rodrigues, estreou quarta na Semana Dos Realizadores. Podia ser um misto de “Vai Trabalhar Vagabundo” com “Todas as Mulheres do Mundo”, mas acabou sendo apenas um projeto frustrado de comédia popular. Frustra-se, antes de tudo, pela falta de ritmo de comédia. É lerdo nas ações e pastoso nos diálogos. As piadas de baixaria ou de pretensa incorreção sociológica são apenas bobas. As atuações tampouco contribuem com algum veneno. Se tecnicamente o filme não se sai mal, ainda faltou muito para roçar a tradição dos encontros de malandros com gostosas no cinema carioca. Aliás, entre os novíssimos cariocas, parece que os documentários estão bem mais interessantes que as ficções.

Eximo-me de comentar o curta STAR POWER READY porque minha parca inteligência necessitaria de mais umas oito revisões para entendê-lo. O problema deve ser meu – reconheço sem ironia.

29 Nov
NOITES DE REIS passou ontem no encerramento da Semana Dos Realizadores. Algo me diz que Vinícius Reis não estava exatamente no seu elemento com aquele argumento grave e aquela narrativa por demais elíptica. No cenário deslumbrante de Paraty, uma família tenta sobreviver aos estilhaços de uma perda e, tal como as casas protegidas pelo Patrimônio, renovar-se sem perder as características originais. A sensibilidade do diretor transparece na condução dos atores e no trabalho de câmera, mas o tratamento por demais introspectivo acaba tornando a narrativa muito lenta e um tanto esvaziada de emoção.

O curta EM CERTAS CAVERNAS GOTEJA A ÁGUA, de Sofia Saadi, estabeleceu um certo diálogo com o longa de Vinicius, colocando a bela Sara Antunes em contato sensual com a natureza generosa do sítio da família de Lis Kogan, onde foi filmado.

Na sessão de premiação passou o média SOBRE O ABISMO, de André Brasil, vencedor do Janela Internacional de Cinema de Recife. O filme começa como uma bonita meditação sobre o caráter “autônomo” das imagens e sua permanência residual nas telas de cinema. Depois envereda por um cipoal de citações cinematográficas e filosóficas que inclui Godard, Sontag, Benjamin, Agamben, Nietzsche e muitos mais em meros 30 minutos. A coisa assume dimensão quase religiosa sobre “imagens que salvam”, num tom mais de pregação que de palestra.

5 comentários sobre “Retrospecto da “Semana”

  1. Pingback: Favela dos meus amores | ...rastros de carmattos

  2. Carlinhos, concordo contigo, é importante sim aumentarmos a projeção dos filmes, o alcance a um público maior. Quando eu falava em tamanho eu me referia na verdade à quantidade de filmes. Reduzimos em 30% o número de filmes em relação ao ano passado, pra ter uma seleção mais enxuta e aumentar o tempo de de debate após cada exibição. Senti muita falta de ocuparmos uma sala maior e de poder repetir os filmes. Mas esses são desejos que só poderemos executar quando tivermos o tal patrocinador inteligente, e ele há de vir logo. De qualquer maneira algo que me deixou muito feliz esse ano foi a percepção de que eu desconhecia uma parte grande do público, já bem maior que ano passado por exemplo. Pessoas que não fazem parte de patota ou gueto, e que vi repetidas vezes, acompanhando assiduamente os filmes, participando dos debates. E obrigada pelo teu acompanhamento também assíduo, boas as trocas.

  3. Comentário de correção: a projeção digital dos filmes não foi feita pelo cinema Arteplex, mas sim pela Em Quadro, com projetor sublocado da RGB Projeções. Ou seja, tudo de fora, terceirizado.
    Fico grato por todos os elogios à projeção que tivemos, de qualquer modo. 🙂

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