Pílulas 25

A longa deambulação de três personagens pelo aeroporto Santos Dumont vazio numa madrugada é a metonímia perfeita de O ABISMO PRATEADO. O filme sai sem rumo definido e espera, espera, espera… Até que algum sentido se produza. Violeta, a protagonista, passa pelas fases sucessivas da vítima numa separação: se choca, se desespera, se dissipa… Até que um encontro quase mágico a coloque na reta da aceitação. Karim Aïnouz está presente com seu misto de sensualidade e melancolia, mas, apesar de todo o empenho da Negrini, acho que ele não encontrou a chave para ligar as emoções do filme. O processo de Violeta simplesmente não passou da tela para mim, consumindo-se numa sucessão de esperas (o elevador, o banheiro, o avião). Tudo me soou um tanto desmotivado e brusco, inclusive a ostensiva trilha de ruídos ambientais que parece servir apenas para marcar arbitrariamente a passagem do caos para uma duvidosa paz interior. Não contribuíram muito a cópia digital escura e os problemas de humm eletrônico (da cópia) na exibição do Espaço Itaú de Cinema.

DEPOIS DE MAIO se beneficia muito da memória autobiográfica de Olivier Assayas e de uma direção de arte capaz de reproduzir em detalhes o ambiente da contestação juvenil de 1971 na França. Nada mais verista do que aquela garotada deprimida, assistindo a cada dia os seus sonhos de revolução se dissolverem nas próprias contradições da contracultura e nas derrotas para o “mundo burguês”. Não há a glória do cinema engajado nem o romantismo de um Bertolucci, nem tampouco a amargura dos filmes sobre o fracasso. Por isso mesmo fiquei me perguntando: o que haveria em troca? Assayas de certa forma se coloca em sua autoficção, mas ao mesmo tempo se mantém tão afastado de tudo, tão desapaixonado que parece estar tratando da vida de jovens de Saturno. Daí o filme resultar longo, bastante dispersivo, limitando-se a uma crônica desencantada da fase em que os meninos caíram na real.

A Nápoles de “Gomorra” está de volta no novo filme de Matteo Garrone, REALITY. Mas não como cenário de brutalidade mafiosa, e sim como espaço de uma quase-fábula sobre o abismo de um sonho. REALITY tem o sabor acridoce das clássicas comédias italianas. De certa forma, é um produto feito sob medida para ser consumido como tal: a paleta cromática carregada, as falas incessantes no dialeto napolitano, a visão carinhosa e cômica das classes populares, os personagens mezzo-espertos-mezzo-ingênuos que fizeram a fama de Fellini, De Sica, Scola ou Germi. Até a trilha do onipresente Alexandre Desplat emula os acordes daquela época áurea. O presidiário Aniello Arena está perfeito no papel do peixeiro que empenha suas esperanças e sua sanidade na expectativa de ser chamado para o Big Brother italiano. O filme mostra não só o BB como uma doença contemporânea, mas o quanto de reality show existe no cotidiano fake dos shoppings, parques aquáticos, casas de festas, celebridades vazias, etc. Não é preciso ser escolhido no programa para se experimentar um mundo de simulacros que está por toda parte. Mas o bravo e comovente Luciano vai fazer de tudo para entrar “na casa”. Mesmo jogando para a plateia internacional, REALITY não deixa de ser irresistível. 

Não foi surpresa. Já tinha ouvido muitos elogios a FLORES RARAS, o novo Bruno Barreto. Mas o filme excedeu minhas expectativas ontem na reabertura do Espaço Itáu de Cinema. Bruno dirige com uma maturidade invejável. O roteiro é sóbrio e fluente ao retratar aquela união de três mulheres que era ao mesmo tempo um casamento e um triângulo amoroso. A atração e as fissuras entre Lota e Elizabeth são pontuadas com inteligência, envolvendo poesia, álcool, ciúme e política. A encantadora Miranda Otto e a assertiva Glória Pires, em especial, mostram uma química digna de grandes e corajosas atrizes. Tudo funciona perfeitamente na parte técnica, da fotografia de Mauro Pinheiro Jr. à abundante (mas não invasiva) música de Marcelo Zarvos. Bruno constrói alguns dos planos mais bonitos de sua carreira. E comove na forma como revela que os postes de luz do Parque do Flamengo foram inspirados na lua de Ouro Preto. O lançamento está previsto para agosto, mas se eu fosse eles lançaria antes para contribuir nesse momento auspicioso de afirmação do amor entre mulheres.

Um comentário sobre “Pílulas 25

  1. Carlos,

    Além da cópia escura não gostei nada da janela em que “O Abismo Prateado” foi projetado no Espaço Itaú de Cinema. A janela era retangular e poderia ter coberto a tela toda. O que se viu foi uma janela com faixas pretas tanto dos lados, quanto embaixo e em cima. Mais um problema da projeção ou foi uma opção estética do diretor, algo para mim decepcionante, que me distanciou do filme.
    Em tempo: não gostei nem um pouco da forma “muderna” em que o cinema agora mostra os cartazes. Além de serem menores, chega a ser irritante tentar acompanhar a arte do cartaz bem como a ficha técnica e as premiações, participações em festivais, quando isto ocorre. Desta vez surgem 4 filmes de uma vez e logo muda para três. Mais ao fundo perto da entrada às salas tem-se os filmes por estrear com um agravante. Além da rapidez com que são mostrados os cartazes simultaneamente, temos que aturar marketing do Itaú para ver os cartazes novamente, cuja apreciação não tinha sido possível. Enfim, tiros pela culatra.
    Nelson

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