Malu e a flor

Reponho aqui meu texto publicado na época do Festival do Rio

Como as flores amazônicas que desenhava, Margaret Mee era delicada, risonha e elegante. Mas como as árvores que costumava esboçar como pano de fundo de seus desenhos, ela também era forte e determinada. A excêntrica senhorinha inglesa que combinava ciência e arte em suas aventuras pela Amazônia e a Mata Atlântica brasileiras ganha enfim um perfil cinematográfico à sua imagem e semelhança.

Não é mero jogo de ideias dizer que Malu De Martino cuidou desse seu novo documentário com o esmero de “Miss Margaret” no manejo de seus lápis. Margaret Mee e a Flor da Lua é delicado, risonho, elegante – e também forte e determinado ao fazer os alertas preservacionistas de MM ecoarem nos alarmes de hoje. Este é um filme sobre uma artista e uma doce guerreira.

O roteiro é primoroso ao situar desde o início o anseio de Margaret por um encontro pleno com a Flor da Lua, uma rara espécie que se abre apenas uma vez por ano, durante uma breve noite. Essa meta se transformou no desafio de uma vida e funciona aqui como eixo emotivo do filme. A personagem vai florescendo lentamente diante de nós através de depoimentos de amigos, colaboradores e discípulos; da narração por Patrícia Pilar de trechos dos diários de Margaret; e de alguns preciosos vídeos com sua voz e movimentos. A junção de informação relevante com detalhes pitorescos e histórias hilariantes compõe um retrato sóbrio e afetuoso.

Como não deveria deixar de ser, a busca de imagens deslumbrantes da paisagem e da flora na região do Rio Negro restitui o olhar apaixonado de MM. A câmera se converte numa nova mirada sobre as formas belas e intrigantes da natureza, aquele mundo no qual Margaret costumava refugiar-se “do tumulto, da poluição e da política”. A fotografia de Julia Equi e a montagem de Pedro Rossi privilegiam a serenidade de um passeio sem pressa pelo cenário.

Não posso imaginar um estilo mais adequado para rememorar Margaret Mee e sublinhar a atualidade de sua pauta ecológica. Nem uma maneira mais feliz e comovente de se aproximar novamente da quase mitológica Flor da Lua.

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