O véu que nos protege

O que pode levar uma moça do Rio de Janeiro a trocar o modo de vida carioca por um cotidiano restrito às normas islâmicas e a cobrir o corpo dos pés à cabeça? Movido por essa curiosidade, o diretor e roteirista Paulo Halm juntou-se a amigos e alunos da escola de Cinema Darcy Ribeiro para fazer o documentário Hijab – Mulheres de Véu. Isso foi em 2006, mas só agora o filme chega aos cinemas.

Daí uma certa sensação de déja-vu quando se ouvem argumentações contra a perseguição aos muçulmanos na guerra contra o terror, então no seu auge. Mas, de resto, Hijab transcende os limites da atualidade e toca em questões atemporais sobre a opção religiosa e seus reflexos nas relações matrimoniais e familiares.

Entre as seis mulheres abordadas no filme, só uma é descendente de palestinos e, como tal, apresenta um background propício ao islamismo. As demais, curiosamente, aproximaram-se da mesquita por razões diversas, até mesmo prosaicas: um curso de árabe, um interesse pela cultura dos países islâmicos, etc. Em alguns casos, isso as levou a enfrentar a oposição da família, que professava outra fé ou nenhuma.

Baseando-se quase exclusivamente em depoimentos das moças, o filme limita sua capacidade de dar um quadro mais completo dos contextos pessoais. O discurso assume uma feição muito justificativa e defensiva dos valores islâmicos, inclusive quanto à poligamia masculina e contra os estereótipos “da mídia”. Tudo isso, claro, segundo uma leitura progressista e culta do Alcorão (livro, aliás, que se presta às interpretações mais contraditórias, de acordo com o interesse do leitor). As sete moças são instruídas e simpáticas, e o filme se beneficia disso tanto quanto se ressente do ângulo único.

De qualquer maneira, alguns insights ficam na memória. “Mesmo coberta dos pés à cabeça, os homens ainda mexem comigo na rua, me chamam de gostosa”, admite, às risadas, a agricultora Zahreen. “Quando você coloca o véu, vira alvo e estandarte”, resume bem a bela Jamila, casada com um líder da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro. Essa entidade é situada na Tijuca, bairro que reúne a maior parte dos muçulmanos do Rio.

O véu é para essas moças uma proteção contra a vulgarização da sexualidade em público. No filme elas contam como se “reverteram” à religião islâmica (parece-me que o sucedâneo da palavra “converter” sugere que o islã não foi uma mudança, mas uma volta à origem); como vivem o dia-a-dia de exceção na cidade e como conheceram seus namorados ou cônjuges. A união com estrangeiros parece frequente, já que a “vida coerente com a religião” é um critério importante de escolha, e a internet está aí mesmo para encurtar distâncias.

A qualidade um tanto precária da imagem e do som condiz com o aspecto doméstico da abordagem. Mas, independente da falta de recursos, nota-se uma ausência de maiores pretensões que poderiam enriquecer esse perfil para além do que é dito e do pouco que é mostrado.  

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