As muitas viagens do chanceler

Uma amiga me perguntou porque eu estava lendo as Breves Narrativas Diplomáticas do Celso Amorim. Dei-lhe três razões: minha admiração pelo nosso super-diplomata e amigo do cinema; meu interesse pela política externa inovadora do governo Lula; e a curiosidade pelo dia-a-dia de um chanceler em seu périplo pelos quatro cantos do mundo, quase sempre pisando em ovos.

O pequeno livro atende um pouco a cada uma dessas expectativas, sem ser o calhamaço anterior do Celso, Conversas com Jovens Diplomatas. Cinco dos sete capítulos se referem às negociações no âmbito da América Latina, África e Índia. Os demais, ao Iraque e à Rodada de Doha. Refletem, mais que tudo, a ênfase do governo Lula numa aproximação Sul-Sul, em detrimento da relação subserviente com as potências do Norte. Sem arroubos de vaidade, o ministro deixa claro o papel decisivo e agregador do Brasil seja na desmobilização da nefasta Alca, seja na consolidação de comunidades importantes como a Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) e a Unasul.

No difícil tabuleiro de xadrez internacional em torno da Venezuela de Chávez, o Brasil foi interlocutor privilegiado. Basta dizer que Colin Powell certa feita, num gesto de rara humildade, mandou seu preposto Roger Noriega submeter previamente a alguém do Itamaraty o discurso que faria numa comissão do Congresso americano a respeito da Venezuela.  

Aliar a integração econômico-comercial a uma união política era preocupação constante da política externa brasileira no período. O Ministro das Relações Exteriores brasileiro tem uma peculiaridade diferente da maioria dos seus pares: trata diretamente de acordos comerciais, agrícolas e industriais. Uma vez George W. Bush se referiu à atuação de Amorim com a expressão “dois chapéus”. Isso o colocava em contato frequente não só com outros chanceleres, mas também com presidentes, dirigentes de organismos internacionais e de associações nacionais as mais diversas. Nesse aspecto, ele situa uma relevante diferença: “Obter o apoio político de presidentes e chanceleres é uma coisa; vencer a resistência entranhada de negociadores é outra”. 

Em meio às anotações de sua memória e agendas, Celso Amorim nos oferece pequenos perfis de autoridades com quem conviveu. Nesse contexto, é interessante perceber suas cuidadosas mas claras restrições ao voluntarismo e ao centralismo de Chávez, que mais de uma vez esteve prestes a botar a perder importantes negociações. Conta Celso que durante uma reunião no México, em 2010, o cubano Raúl Castro precisou se interpor fisicamente para que Chávez e o presidente colombiano Álvaro Uribe não se engalfinhassem. A forma educada de se referir a colegas menos preparados o leva, por exemplo, a falar de ministros indianos “com a característica comum da idade avançada e do domínio pouco mais que superficial dos dossiês”.   

Mas quando quer ser contundente, as palavras lhe vêm redondas. Explicando sua preferência pelo poder mediador do Ibas em relação aos Brics, por exemplo, Celso alega que “a transição democrática vivida por suas sociedades lhe permite guardar distância tanto da arrogância política típica dos ocidentais (“o lado certo da história”) quanto da intransigência dos que, como China e Rússia, demonstram mais dificuldade com temas de apelo universal, caso dos direitos humanos”. Em outra passagem, ele pede licença para endossar uma teoria conspiratória: o quartel-general da ONU no Iraque em 2003, quando morreu num atentado o diplomata Sérgio Vieira de Mello, era propositadamente deixado como “ponto fraco” de segurança, “até para desviar os eventuais ataques do alvo mais procurado: a administração militar norte-americana”.

No livro, são constantes as referências à ferrenha oposição feita pela mídia brasileira a certas opções da política externa do governo Lula. Uma pressão, segundo ele, “tantas vezes utilizada como veículo de interesses setoriais ou mesmo externos”. A aproximação com a África, por exemplo, teve que ser negociada principalmente com os “formadores de opinião” brasileiros. Amorim trata também de deixar claro que os esforços iniciais de acercamento com a África, tomados por sua chancelaria durante o governo Itamar Franco, foram negligenciados durante o período FHC, sendo retomados e reforçados somente a partir de 2002, por obra de interesse de Lula e do PT. Uma retomada, por sinal, que talvez acontecesse de qualquer maneira, uma vez que Celso era cotado para a pasta também pelo candidato José Serra.      

O trabalho do chanceler brasileiro requer uma mobilidade física desafiadora. Celso conta alguns episódios característicos, como viagens extenuantes  – até mesmo em jatinho sem banheiro –, um sono atrasado em sofá da Organização Mundial do Comércio e a “fuga” dos demorados jantares oferecidos por embaixatrizes. Os locais de reunião eram os mais inesperados, de salas vips de aeroportos a salões de hotéis, palácios ou caminhadas com celular. Às revistas da segurança em aeroportos Celso diz jamais ter se submetido, mas de um café de má qualidade nem ele conseguia escapar. A certa altura, relata assim uma chegada a Medellín em 2003, ao lado de Lula:

“Como de hábito, sentei-me ao lado do presidente. Já havia escurecido quando o veículo iniciou o percurso em uma estrada estreita, repleta de quebra-molas, o que em tese o tornava alvo fácil para um atentado de algum grupo armado político ou de criminosos comuns. Soldados colombianos, postados ao longo da estrada de duzentos em duzentos metros, não chegavam a inspirar confiança. Naquele momento, um pensamento lúgubre me ocorreu. Se algum disparo atingisse o nosso presidente, empossado havia poucos meses, cercado de inúmeras expectativas do povo brasileiro, melhor seria que eu fosse alvejado junto com ele. Pelo menos, nessa hipótese fatídica, não teria que me explicar à população por ter posto a vida de Lula em risco de forma tão irresponsável!”

Sobre o proverbial carisma do presidente, Celso revela mais uma historinha ilustrativa. Durante uma reunião do Ibas, o presidente sul-africano Thabo Mbeki observou que Lula era a única pessoa capaz de retirar o primeiro-ministro Manmohan Singh do seu estado de nirvana e fazê-lo sorrir.  

2 comentários sobre “As muitas viagens do chanceler

  1. Celso Amorim, pra quem não sabe foi assistente de direção de Os Fuzis, salvo engano, e um bom administrador da Embrafilme. Vou comprar o livro, que tem , lendo seu relato Carlinhos, jeito de roteiro. .Boa dica.

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