Trinta e Mil Vezes

Seria bacana se TRINTA entrasse fundo no paralelo entre ópera e carnaval, que regia a criação de Joãosinho Trinta. Mas isso se limita à trilha sonora, que explora muito bem o pêndulo entre Verdi e Cartola, sem falar na partitura original de André Abujamra, cheia de uma energia a que o filme não consegue corresponder. TRINTA se beneficiaria bastante de um pouco mais de pulsação e encantamento. E um pouco menos de chavões biográficos, como a famosa frase sobre miséria e intelectuais gritada em momento culminante, ou o eco das dificuldades enfrentadas ressoando em sua consciência num momento de crise. Faltou também um mínimo de aprofundamento na vida pessoal para que o vaidoso e ambicioso Joãosinho parecesse algo além de uma ilustração de sua face mais conhecida. Mas é preciso dizer que, ainda assim, o filme merece atenção pelo capricho da produção, o acerto em situar a ação nos preparativos para o carnaval de 1974, a interpretação de Matheus Nachtergaele (apesar de empertigado artificialmente) e do elenco em geral, além do campo de sugestão aberto pela tal aproximação do carnaval à ópera. Tímido, cauteloso, TRINTA deixou de lado os caminhos da folia e da cena lírica em troca de uma encenação mais tradicional. Acho que faltou um Joãosinho Trinta dentro de Paulo Machline.

Fui ver MIL VEZES BOA NOITE na expectativa de um drama profissional sobre uma famosa fotógrafa de conflitos e encontrei um melodrama sobre uma viciada que põe em risco a própria vida e a estabilidade de sua família. Substitua as fotos pelo álcool ou as drogas, e o efeito não será diferente. De volta de uma experiência traumática no Afeganistão, a moça tenta acatar os apelos do marido e abandonar o trabalho perigoso, lutando contra a força do vício. O proverbial talento de Juliette Binoche, principal atrativo, e os cuidados fotográficos não são bastantes para resgatar o filme de um pântano de dilemas melosos, trilha sonora soporífera e chavões familiares como a adolescente em crise, a menorzinha graciosa e o marido à beira de um ataque de nervos. Mas o que mais me incomodou foi a distância entre a gravidade do pano de fundo (conflitos no Congo, Afeganistão e Quênia) e a banalidade do enfoque individualista no primeiro plano. O mundo está pegando fogo, mas temos que ver isso pelo prisma de um capricho psicológico da fotógrafa ou como “tema” de um trabalho escolar da filha. No fundo, é uma abordagem quase obscena, fruto de um neocolonialismo benemerente e piedoso, que alimenta a má consciência dos ricos com a denúncia da tragédia dos pobres.

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