Cinco brasileiros

2745257503-made-china-e-primeiro-filme-de-ficcao-de-estevao-ciavattaÉ grande a tentação de comparar MADE IN CHINA com os produtos baratos e coloridos que vêm da China. A comédia de Estevão Ciavatta é verborrágica, ligeira e descartável como uma boneca que faz muito barulho enquanto (pouco) dura. Mas, como tantos produtos ching-ling, ela também funciona razoavelmente e, apesar da matéria plástica, não faz feio à primeira vista. A trama, concentrada no “Saara” carioca, lida bem com a pororoca cultural-comercial de brasileiros, árabes e judeus de repente invadidos pelos produtos chineses que põem a concorrência nos chinelos. A competição entre as duas lojinhas é uma nova e burlesca versão da luta do Dragão (da Maldade) contra o Santo Guerreiro, distribuída pelas festas populares entre setembro e abril do ano seguinte. É o tempo suficiente para casais se formarem, uma máfia ser desvendada e uma saída esperta ser encontrada para evitar a falência.  É claro que tudo gira em torno de um veículo para Regina Casé ser mais uma vez Regina Casé. Mas o resto do elenco aproveita bem suas oportunidades. Fotografia, direção de arte e figurinos convergem para a estética “bagulho colorido” e dão o tom de sitcom. Você pega ou larga, como nas gôndolas de 1,99. Diverte-se aqui e ali, acha bobo em boa parte do tempo. Aquele papo de relação custo-benefício.

Evaldo Mocarzel tomou duas boas iniciativas em CUBA LIBRE (em exibição no Cine Joia): registrar a volta da atriz transformista Phedra de Córdoba a Havana depois de 53 anos; e usar a viagem para documentar o embrião de uma nova consciência sobre a diversidade sexual na ilha de Fidel. Só faltou fazer com que esses dois assuntos conversassem de verdade dentro do filme. Um dos problemas do roteiro é não fazer com que a presença assumida e performática de Phedra em solo cubano possa ser percebida como sinal ou termômetro de qualquer avanço psicossocial. Ela está por demais ocupada com suas memórias e embevecida com seu estrelato no documentário para servir de agente de uma investigação da cena artística cubana. Evaldo, por seu lado, obtém flashes um tanto soltos, dos quais o melhor sem dúvida é uma entrevista com um casal de lésbicas que se refere uma à outra com poemas. Há também uma curiosa noitada num clube LGBT de Havana, mantido em regime de semiclandestinidade. O grupo teatral paulista Satyros, ao qual pertence a atriz, está em Havana ensaiando um espetáculo de autor cubano, texto que também permanece em relativa obscuridade depois de terminado o filme. De maneira geral, CUBA LIBRE sugere o aproveitamento limitado de uma rara oportunidade. Dessa vez, o proverbial senso de urgência e improvisação de Mocarzel não foi suficiente para juntar as pontas da aventura.

Muita gente não percebe a pequena troca de letras e pensa que o documentário PERNAMCUBANOS – O CARIBE QUE NOS UNE (também no Joia) trata de pernambucanos. Trata, sim, mas dos paralelos e semelhanças entre as culturas e religiões de Pernambuco e de Cuba. Há 26 anos o brasileiro Orlando Senna e o cubano Santiago Alvarez fizeram juntos “BrasCuba” com intenção semelhante a propósito dos dois países. PERNAMCUBANOS é mais específico, relacionando um estado com um país. A ideia central é confusa no bom e no mau sentido. O bom sentido é de mesclar as cenas e referências de modo a quase indiferenciar os dois lugares. A montagem corta de Santiago de Cuba para a periferia de Recife, por exemplo, sem que a gente se dê conta imediatamente. Isso é bom para confirmar subliminarmente o discurso etnográfico do filme, que destaca a matriz africana e o tempero caribenho como elementos unificadores. Mas há também o mau sentido: a sucessão de performances musicais, danças, folguedos e rituais religiosos – do candomblé e da santería ao hip hop – acaba formando um painel apenas horizontal, uma festa, a que falta aprofundamento e algo além da mera constatação. Além disso, é subaproveitado o eixo principal do roteiro, que são as viagens da atriz e diretora de teatro cubana Fátima Paterse a Pernambuco e da coquista e mãe de santo pernambucana Beth de Oxum a Cuba. Elas aparecem apenas em conversas ilustrativas, sem um percurso que nos revele o que encontraram de fato.

Quando foi escrita, em 1966, a peça MÃO NA LUVA tinha endereço certo: a exposição crua de uma classe média acomodada nas convenções sociais, em busca de segurança no emprego e escondendo a roupa suja da insatisfação conjugal. Penso mesmo numa certa influência de Nelson Rodrigues na temática do adultério e do servilismo trabalhista, assim como na existência do personagem Portela. Mas como assegurar o prazo de validade desses ingredientes sem a genialidade dramatúrgica e dialógica de um Nelson? Vianninha tem aqui uma peça sui generis, que muitos críticos sempre consideraram mal lapidada. Levada à tela agora, me pareceu envelhecida e fora de tom. A adaptação de Susana Schild se esmerou em agregar referências contemporâneas, mas isso não foi suficiente para atualizar um questionamento burguês que hoje soa como clichê. A direção de Roberto Bomtempo e José Joffily, embora explore bem os espaços do apartamento e a dinâmica dos flashbacks, não consegue evitar o esquematismo entre risadas do passado e discussões ríspidas do presente. Com isso a discussão de relação se torna rapidamente aborrecida, até em função de limitações do casal de atores. Enquanto na peça, eles são apenas “Ele” e “Ela”, aqui ganharam nomes, e Sílvia cita o nome de Lúcio em quase todas as frases, gerando uma cantilena monótona. Creio que a volta a esse texto só se justificaria se houvesse um tratamento radicalmente inovador que espanasse a poeira do original.

Esta semana entrei pela primeira vez no Centro Cultural Veneza e sentei-me diante de uma tela como nos velhos tempos do Cine Veneza. Foi para ver uma pré-estreia do documentário SEMEAR ESTRELAS, de Guto Neto, cineasta e professor da FACHA. Filme “de guerrilha” feito com recursos próprios, enfoca a obra social de Terezinha Oliveira e sua Escola Espírita Joanna de Angelis, em Engenheiro Pedreira, Baixada Fluminense. Há quase 40 anos a escola tem formado gerações de alunos orientados para o trabalho, uma vida digna e generosa. A doutrinação espírita está lá, seja através das aulas de evangelização, seja na constante menção às práticas do espiritualismo, mas nota-se também uma boa margem de tolerância para a diversidade religiosa. O documentário não entra nesse mérito nem o discute. Quer apenas repassar a importância e a longevidade da ação da escola, um modelo bastante tradicional de benemerência. Essa disposição sincera ajuda a superar as limitações técnicas e explica uma abordagem muito focada na Dona Terezinha, o que pode sugerir um certo personalismo. Embora modesto e sujeito a rejeições pelo caráter levemente doutrinário, o filme merece atenção pelo viés da educação e pelo carisma da personagem central.

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