Notas de Tiradentes: Vamos gozar outra vez

Depois que o cinema da Retomada foi acusado de puritano, esvaziado de libido, os realizadores da geração seguinte parecem dispostos a literalmente tirar o atraso. O sexo tem servido inclusive à afirmação da diversidade sexual e a um cinema muito colado à experiência pessoal – real ou fantasiada – de seus autores. Penso essas coisas a respeito de dois filmes vistos na Mostra de Tiradentes: Animal Sonhado e Teobaldo Morto, Romeu Exilado.

O primeiro é um filme coletivo de seis jovens diretores cearenses. Cada um dirigiu um episódio, tendo os cinco colegas como assistentes. Os pequenos contos giram em torno de encontros sexuais de naturezas diversas, da aproximação gay à prática grupal e ao incesto virtual. Na maioria dos casos, a dramaturgia é rala, limitando-se à pura encenação de pulsões eróticas sem passar ao sexo explícito. A transição entre os episódios é pouco marcada, fazendo com que o espectador se veja dentro de um fluxo de desejos, olhares e contatos, ainda que as situações, no fim das contas, sejam estanques.

Por vezes, Animal Sonhado se apropria de elementos da comédia erótica brasileira dos anos 1970, mas sem nada do caráter comercial e voyeurístico daquela produção. A ideia aqui é experimentar com diversas modalidades de desejo. Há limitações visíveis no trabalho do elenco e mesmo na simulação dos atos sexuais, frutos talvez da inexperiência da equipe nos dois campos. O que me interessou particularmente foi ver a questão dos afetos, tão cultuada pelo cinema cearense e muitas vezes de forma romântica, receber aqui um tratamento físico, quase selvagem, protagonizado mais por corpos desejantes que por veleidades platônicas.

Em Teobaldo Morto, Romeu Exilado, segundo longa do capixaba Rodrigo de Oliveira, o sexo irrompe, não sem certa surpresa,  no meio de uma narrativa de fundo mítico sobre o reencontro de dois amigos há muito tempo separados. A trama é exageradamente complexa, envolvendo a longa estada de um dos amigos na Croácia, sua mãe deixada aos cuidados do outro, uma mulher objeto do amor de ambos, uma gravidez, um cavalo, uma árvore em chamas… Rodrigo afasta-se do relativo naturalismo de As Horas Vulgares para abraçar uma narrativa solene, de movimentos lentos, que evoca ora o teatro da palavra de Jean-Marie Straub, ora a fantasmagoria sonambúlica de Pedro Costa ou mesmo a condensação cênica de Manoel de Oliveira. A encenação, sempre um tom acima de qualquer realismo, toca o mítico numa sequência de praia ao incluir as figuras de um centauro e de Cupido disparando flechas sobre os dois amigos.

Todo esse aparato sobre-humano, que inclui as referências do título à peça de Shakespeare e muitas outras espalhadas pelo filme, vai se revelar postiço quando percebemos que está ali somente para dar roupagem nobre a uma simples história de repressão homoafetiva. Quando a relação enfim se concretiza, é como se todas as grandes questões tratadas até então se resolvessem e o mundo voltasse à sua ordem. Não deixa de ser desapontador. No fundo, é mais do mesmo.

Rodrigo de Oliveira deixa patente um extremo cuidado com as formas, a emotividade das cenas e as interpretações dos atores. Demonstra sabedoria também no uso intensivo da trilha sonora, aqui de músicas clássicas, como fazia com o jazz no longa anterior. A elegância dessa condução, porém, com frequência dá lugar a uma gravidade bastante afetada, como uma reivindicação explícita do selo de “filme de arte”. A primeira metade do filme se arrasta numa opacidade intencional que só vai mudar de tom com a entrada em cena do segundo personagem masculino. Daí em diante, a força das imagens e dos sons vai de alguma maneira compensar as claudicações do sentido.

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