Birdman e Grandes Olhos

BIRDMAN faz com o espaço uma façanha técnica comparável à que “Boyhood” faz com o tempo. Alejandro González Iñárritu rodou o filme em longos planos móveis dentro e ao redor de um teatro da Broadway, costurando os cortes de forma a dar a ilusão de uma única tomada contínua de quase duas horas. As emendas são dissimuladas na aproximação de determinadas superfícies, na passagem de telas dentro da tela, em colagens e efeitos digitais. O tempo real dá saltos enquanto o fluxo da cena segue um ritmo aparentemente contínuo. Resulta uma experiência excitante, especialmente para quem não se importar que o filme seja apenas uma sucessão de pessoas tendo faniquitos por causa de competição artística, ostracismo profissional e rejeição afetiva.

Outro atrativo é a soberba atuação de Michael Keaton num papel que se inspira até certo ponto em sua própria carreira. Celebrizado por dois “Batman”, mas tendo patinado em muitos papéis medíocres, Keaton vive aqui um ator famoso por uma franquia como o super-herói alado Birdman. Riggan precisa desvincular-se daquele estigma e recobrar prestígio e harmonia familiar. A oportunidade está na Broadway, onde, no auge do estresse, ele dirige e atua numa peça baseada em conto de Raymond Carver.

Essa viagem labiríntica e veloz pelos bastidores do teatro, aditivada pela trilha sonora do baterista Antonio Sánchez, lembra um Terry Gilliam com menos ácido e mais rigor linear. O problema é que o brilho e a ousadia da execução estão a serviço de um roteiro sem muita substância, pontuado por referências óbvias ao culto às celebridades nas redes sociais, ao sensacionalismo da imprensa, à veracidade cênica e às fofocas de Hollywood, afora outras citações midcult que se confundem com a proliferação de merchandising. Enquanto “Boyhood” nos saciava pelo acúmulo de observações sobre a vida, BIRDMAN dá voltas mirabolantes no carrossel do teatro e se dissolve no ar deixando uma sensação de vazio.

P.S. Lembrando três outros casos de longas em plano contínuo: ARCA RUSSA, de Sokurov, AINDA ORANGOTANGOS, do gaúcho Gustavo Spolidoro (ambos rigorosamente sem cortes) e FESTIM DIABÓLICO, de Hitchcock (cortes disfarçados nas emendas dos rolos).


Se não estou errado, GRANDES OLHOS é apenas a segunda vez que Tim Burton se debruça sobre a vida de personagens reais. E dá um jeito de transformá-los em personagens de fábula, como para caber melhor no seu figurino autoral. “Ed Wood” era uma obra-prima. GRANDES OLHOS é um produto kitsch. Não que faltem flashes de inteligência e diversão. O visual de antiga revista ilustrada, o aspecto de cartoon vivo e o descompromisso do diretor com qualquer realismo têm lá seu charme, é bem verdade. Mas algumas coisas funcionam mal na maneira de contar essa história. A passividade com que Margaret alimenta seu recalque (apesar da boa performance de Amy Adams) e a facilidade com que Walter Keane (Christoph Waltz) mantém sua farsa ao longo de tanto tempo soam inconvincentes até para um conto de fadas. A ligeireza dos contos de Tim Burton se mostra aqui insuficiente para dar conta das muitas sugestões contidas no caso Big Eyes: cárcere familiar, violência doméstica, roubo de autoria, vigarice artística, mercantilização da arte, reprodutibilidade pop. O filme também degringola bastante na meia-hora final, quando a caricatura de Walter assume ares de “O Iluminado” e depois envereda por uma comédia de tribunal insustentável. Burton, um colecionador de quadros de Margaret Keane, ao retratá-la usou as tintas certas mas errou no desenho.

2 comentários sobre “Birdman e Grandes Olhos

  1. Carlos: muy bueno tu comentario. Observas como González Iñárritu se mantiene creativo, como narrador cinematográfico, en ese limbo cosmopolita en el que se ha refugiado al salir de México. Lo hace, sin embargo, al costo de haber perdido la ligazón profunda con una situación nacional que dio sentido a su obra en sus comienzos. Lo que lo consagró (y nos dio la sensación de que un gran cineasta latinoamericano estaba naciendo) fue el primer episodio de “Amores perros”. (Los otros dos eran “buñuelismos”, fantasías baratas de su libretista que, por suerte, hoy ya no lo molesta). Lo que aquel episodio primero de la película, el llamado propiamente “Amores perros”, definía, a mi juicio, era la tensión moral y anímica en la cual México debía entrar al mercado común norteamericano, para no resultar “electrocutado” por la asociación con la realidad económica de Estados Unidos. Lo que desgraciadamente ocurrió, después, en gran medida, con la tragedia de la apertura del mercado mexicano al maíz estadounidense, que arruinó al campesinado y terminó arrojándolo inerme en manos del narcotráfico. Después de un millón de muertos de la Revolución, México había estado a punto, a partir de la presidencia de Lázaro Cárdenas, de internarse en un proceso de modernización general de su sociedad que finalmente se frustró. A González Iñárritu le tocaba describirnos esa amarga frustración y la voluntad obstinada de un pueblo por salir de ella, por vencerla, a cualquier costo, como ha ocurrido en los trágicos episodios mexicanos recientes. Que Iñárritu deje ese limbo cosmopolita en el que ya triunfó, como con este “Birdman”, y que vuelva a su país para contarnos historias sobre el empeño de su pueblo por modernizarse en su economía, en su democracia, en su cultura, en su vivir… que será una larga marcha necesitada de quienes hagan su crónica. !Dejate de joder, Iñárritu, y volvé a lo tuyo!

    • Bravo Raúl, por teu lúcido chamado. Já é mesmo tempo de o Iñárritu deixar os holofotes conquistados em Hollywood (ou aproveitá-los) para voltar a fazer um cinema nacional.

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