Notas de Tiradentes: O tempo no corpo

Três filmes vistos na Mostra de Tiradentes indicam um interesse, da parte de cineastas bem diferentes, pelo tema da memória e do tempo atuando dramaticamente sobre o corpo dos personagens. São filmes sobre somatização, em que o físico absorve o emocional e requer dos atores um tipo de entrega especial.

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Nelson Xavier, no papel de um idoso de 92 anos, tem mais uma de suas atuações antológicas em A Despedida, de Marcelo Galvão. Ele estava sob tratamento quimioterápico quando filmou, e de fato parecia bem mais velho e depauperado do que hoje. Seu personagem, apelidado de Almirante, era dado como morto pela vizinhança. Mas um dia resolve sair sozinho para saldar algumas dívidas da vida, principalmente emocionais. O filme se concentra inicialmente em retratar o esforço e a determinação de Almirante em levar a cabo sua missão. Nesse ponto,  A Despedida se assemelha ao filme anterior do diretor, Colegas, na medida em que aborda um personagem teoricamente incapacitado de viver plenamente, mas que se insurge contra essa condição. Trata-se também de um road movie, só que em ritmo de terceira idade. Ao aproximar-se do objetivo final, que é reencontrar a ex-amante vivida por Juliana Paes, Almirante parece rejuvenescer, encontrar reservas insuspeitadas de energia. O psicossomático trabalha aqui de uma maneira restauradora, realçando a característica positivante do cinema de Galvão,  cineasta advindo do meio publicitário.

O argumento de A Despedida, inspirado no avô do diretor, é essencialmente melodramático. Ainda assim, Marcelo Galvão esteve perto de resgatá-lo pela forma como envolvia o espectador na odisseia encenada por Nelson Xavier, um ator capaz de nos fazer “acreditar” em cada gesto, , inflexão ou olhar. Essa concentração de recursos, porém, vai se desfazendo progressivamente a partir da divertida sequência em que Almirante interage com um grupo de maconheiros. Mesmo com alguns momentos de verdade cênica entre Nelson e Juliana, o filme acaba resvalando no banal ao incorporar flashbacks de Almirante jovem e buscar um clima idílico e ao mesmo tempo melancólico que não se realiza enquanto linguagem na tela. Vale registrar que o público de Tiradentes parece ter-se deixado tocar por essa dramatização do envelhecimento e da fome de viver.

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Bem distante da simplicidade formal de A Despedida, o primeiro longa de Gregório Graziozi, Obra, é um filme completamente centrado na sua requintada construção audiovisual. Um jovem arquiteto prepara as fundações de um novo projeto quando descobre um cemitério clandestino em terras pertencentes a seu avô. Sua mulher está grávida,  o que o coloca no limiar entre o passado e o futuro. Os dilemas de sua consciência invadem o corpo através de uma hérnia de disco. O mal na coluna metaforiza a crise estrutural e familiar naquele momento da sua vida, mas não só isso. O que se faz sintoma no incômodo daquele homem é a doença da cidade de São Paulo, com suas camadas de passado soterradas sob o avanço da modernidade. Lembrei-me bastante de A Barriga do Arquiteto, de Peter Greenaway, em que um câncer no abdômen simbolizava um questionamento de princípios da arquitetura pós-moderna.

Obra impressiona por seu preciosismo fotográfico e uma incisiva proliferação de paisagens sonoras. Mas todo esse aparato me pareceu imposto artificialmente sobre os fatos da ação, como se um filme sobre arquitetura precisasse depender exclusivamente da organização das suas formas. O próprio filme parece usar a cinta ortopédica do personagem, tal a rigidez com que tudo é planificado e executado. Por trás daquelas tomadas elaboradas em prancheta, locações escolhidas a dedo e atores em posturas hieráticas, vi uma encenação muito claudicante,  que ressalta sobretudo na dificuldade de Irandhir Santos em dar vida e densidade a um papel distante dos tipos que vem criando no cinema. O filme tem sugerido aproximações a Antonioni e Rossellini, o que comprova a adesão de parte da crítica. Eu prefiro manter reservas e torcer para que Graziozi pondere melhor a relação entre tema e estilo na sua obra.

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Por fim, quero falar um pouco sobre O Tempo Não Existe no Lugar em que Estamos, longa de Dellani Lima de cujo debate participei  como critico convidado em Tiradentes. O paraibano-mineiro-paulista Dellani é cineasta, ator, agitador cultural e músico, além de parceiro de Marcelo Ikeda no projeto Cinema de Garagem. Seu cinema provém da videoarte, da poesia e da performance. Poucos o conhecem fora do circuito de festivais alternativos. Esse seu novo longa tem marcas autorais, como certa fascinação pela passagem do tempo sobre corpos e edificações, o uso da dança e das ações solitárias como elementos constituintes da dramaturgia.

O personagem central de O Tempo…, vivido pelo professor de cinema André Gatti, é um ex-repórter fotográfico e também professor universitário que, demitido às portas da aposentadoria e precisando abrir espaço na casa para um neto a caminho, decide desfazer-se de seu acervo de fotografias e equipamento correlato. Na verdade, Aldo precisa desfazer-se do orgulho do passado e pedir emprego a um ex-aluno. Precisa assumir-se como dinossauro que não soube migrar para a era digital. À medida que seleciona e descarta seu velho material, é como se Aldo fosse abandonando as suas memórias e perdendo sua alma. O processo culmina num colpaso nervoso e numa amnésia. Tratando da dúvida entre guardar o registro das lembranças ou apenas conservá-las no pensamento, o filme aponta para um sentido trágico de esvaziamento e dissolução. De alguma forma, Aldo está sendo cobrado pelas tantas almas que já roubou em sua carreira de fotógrafo, mas ele também personifica o drama dos que não conseguiram fazer a passagem da era analógica para a digital.

O Tempo… é, mesmo involuntariamente, um filme muito próximo de Avanti Popolo, e não apenas pela presença de Gatti num papel de contraponto ao que ele fez naquele filme. Ambos tratam de perda e reativação da memória. No entanto, é curioso que, num tempo de tanta onipotência das imagens, Dellani Lima fale, ao contrário, dos seus limites. As fotos que sobraram do descarte não ajudam a que Aldo recobre suas lembranças. Só a confrontação com imagens novas – o parto da neta – vai ser capaz de retirá-lo do estado de letargia. Seu corpo e sua alma vão depender da inauguração de um novo presente, já que o passado se apagou.

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