O rádio segundo Nicolas Philibert

O CCBB de São Paulo abre hoje (quarta) uma mostra com oito dos nove longas do documentarista francês Nicolas Philibert. Ele ficou famoso por aqui – e no resto do mundo – com o já clássico Ser e Ter (2002), sobre a experiência de uma pequena escola rural dirigida por um professor afetuoso. Depois de fazer sucesso, o filme foi objeto de polêmica quando o professor e alguns alunos reivindicaram direitos de imagem, afinal negados pela justiça.

Educação e comunicação formam a base do cinema de Philibert, ex-assistente de René Allio e Alain Tanner. A mostra não inclui Qui Sait?, de 1999, rodado numa escola de Estrasburgo enquanto os alunos preparavam um espetáculo sobre a cidade. Mas traz um filme sobre internos de uma clínica psiquiátrica ensaiando uma opereta (La Moindre des Choses), dois sobre museus (La Ville Louvre e Un Animal, des Animaux), um estrelado por orangotango em cativeiro (Nénette) e outro sobre os atores não profissionais que um dia participaram do filme Eu, Pierre Rivière…, de René Allio (Retour em Normandie).

A programação abrange ainda Le Pays des Sourds (1991) e seu mais recente trabalho, La Maison de la Radio (2012). Esses dois filmes fazem um contraponto no uso da oralidade e do silêncio. O primeiro pretende levar o espectador a ver o mundo dos surdos através deles, utilizando a linguagem de sinais como principal ferramenta. Já La Maison de la Radio enfoca o rádio, um ambiente em que o silêncio não tem lugar.

O método aqui é semelhante ao que Frederick Wiseman tem usado ultimamente para revelar os bastidores de grandes instituições de entretenimento e cultura, como o corpo de baile da Ópera de Paris, o Crazy Horse e a National Gallery. A não ser por um ou dois momentos de exceção, Philibert não usa entrevistas nem colhe depoimentos, mas apenas observa discussões de pauta, instruções de trabalho, ensaios e gravações.

A Radio France é uma rede pública francesa que engloba sete estações de rádio com programação variadíssima. Philibert espelha essa diversidade saltando livremente de um programa para outro. Assim, temos desde uma palestra sobre A Ilíada a uma entrevista com um fotógrafo de raios, passando por apresentações musicais, edição de notícias sobre a Primavera Árabe então em pauta, dramatizações, programas de auditório e cobertura do Tour de France por um repórter em motocicleta.

Os contrastes entre os assuntos e a excentricidade de alguns profissionais criam uma narrativa por vezes divertida, como na fala do programador de música clássica soterrado por suas montanhas de CDs (foto à esquerda) ou na longa pergunta de um âncora que não tem paciência para ouvir a resposta (foto no alto). Há até mesmo uma locutora cega que redige e lê seu programa em braille. Como entrevistados de programas, Umberto Eco, Jean-Claude Carrière e Edgar Morin passam rapidamente pela tela, sem qualquer privilégio em relação a outros personagens menos estelares.

3 comentários sobre “O rádio segundo Nicolas Philibert

  1. Delicia, esta retros[ectiva de Philibert, Carlos, tenho uma historia muito engracada sobre ele. Quando o conheci num Festival de Cannes, ele me disse: mas eu conheco voce muito bem. Morei em sua casa em Nova York e adoro seu ape, seus livros, sua colecao. E eu perguntei: como assim? e que a pascale dauman me hospedou em sua casa quando voce estava em paris ha alguns anos. ai ficou tudo esclarecido. com efeito, a pascale minha (saudosa) fiel e maravilhosa companheira me havia dito que tinha dado as chaves de casa para um cineasta frances que ia passar um mes em nova york. eu so nao sabia que era o nicolas, cujos filmes sao lindos.

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