Dois brasileiros em Berlim

SANGUE AZUL, de Lírio Ferreira, abriu no dia 5 a mostra Panorama do Festival de Berlim, um destaque e tanto para um filme que já ganhou três prêmios no Festival do Rio, inclusive os de melhor filme e direção. A recepção festivaleira tem sido favorável, mas eu não consegui acompanhá-la. Quando vi o filme, no Rio, o roteiro me pareceu bastante desengonçado, com flechas (ou facas) sendo atiradas para todos os lados: a mística do circo como pano de frente para eventos trágicos, um filho pródigo que volta a Fernando de Noronha, um incesto que sai de longa hibernação, a interação entre os nômades da trupe e os sedentários do lugar. Um cheiro de psicologismo barato exala da metáfora do garoto/rapaz que tem medo de mergulhar mas se atira no ar como Homem-Bala. O folclorismo também inunda o filme com danças místicas à beira-mar, lendas narradas por um velho pescador (Ruy Guerra), show de Lia de Itamaracá, cenas de sexo em múltiplas variantes – tudo isso sem relação consistente com a narrativa, como se estivesse ali apenas pelo seu valor de espetáculo ou homenagem. As cenas do prólogo, num preto e branco extasiante de Mauro Pinheiro Jr., assim como o pas-de-deux subaquático do final, apresentam um tom elegíaco e uma organicidade que vai faltar ao resto do filme. SANGUE AZUL me passa a impressão de um argumento forte que se dissolveu no desenvolvimento fragmentado, na fragilidade dos diálogos e numa direção meio sem rumo.


AUSÊNCIA, de Chico Teixeira, estreou dia 8 na Mostra Panorama do Festival de Berlim. Ao contrário de “Sangue Azul”, que impressiona estrangeiros pelo exotismo, AUSÊNCIA se alinha mais a um estilo de crônica familiar praticado na Europa, sobretudo pelos irmãos Dardenne, ou na Argentina por Carlos Sorin. Isso significa economia de recursos, concentração dramática, naturalismo minucioso e recusa do espetacular. Durante pouco mais de 80 minutos, convivemos com o adolescente Serginho (Matheus Fagundes) e sua busca por laços de afeto. A separação dos pais o deixa responsável pelo irmão menor e pela mãe alcoólatra. Ele trabalha numa feira livre com o tio e se apega como pode a uma protonamorada, um amigo semimudo e um professor (Irandhir Santos) que o acolhe em sua casa, um tanto alarmado com a carência do garoto. A certo ponto, senti falta de um plot mais substancioso para preencher as lacunas da crônica, mas logo em seguida percebi que o filme não se ressente dessa falta. O roteiro trabalha com sutilezas, cenas que nos desafiam a completar com a imaginação e uma habilidosa construção da veracidade dos personagens. A gente acredita que aquela família existe, assim como aquelas relações um tanto ambíguas que nos enchem de férteis perguntas. Para esse efeito de realidade contribuem não só o trabalho preciso dos atores, com destaque para o talento natural de Matheus Fagundes, como também a experiência de Chico Teixeira em documentários. Um bonito filme que, em sua essencialidade, emociona quase sem que a gente perceba.

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