Sobre quadros

Notas sobre mais dois filmes que vi durante o Carnaval

Nicolas Philibert rodou LA VILLE LOUVRE no período final da renovação do museu, nos anos 1980. Com o Louvre fechado, o doc nos oferece a oportunidade de conhecê-lo sem mais visitantes, entregue apenas ao trabalho dos operários, funcionários e curadores. Quadros e esculturas são restaurados, catalogados, transportados, pendurados e etiquetados. Algumas cenas tocam o onírico ou o surreal, na medida em que as obras se deslocam e ganham contornos diferentes do que estamos acostumados a ver, sacramentadas nas paredes das galerias. Temos flashes da preparação dos empregados e da lavagem da pirâmide de vidro, que então se acrescentava ao complexo do museu. Descemos à cozinha, à sala de ginástica (sim, o Louvre tem uma sala de ginástica decorada com posters de exposições) e aos subterrâneos onde fica a reserva técnica, um infindável labirinto de pedra que poderia ambientar O Fantasma da Ópera. A câmera de Philibert é uma observadora discreta, mas sagaz o suficiente para captar os ângulos e os momentos que suscitam humor e surpresa. Aí reside o segredo do cinema direto.


Mordido por uma curiosidade nada elogiável a respeito do Eisenstein dessacralizado por Peter Greenaway em Berlim, assisti ao seu NIGHTWATCHING (2007), empreitada semelhante dedicada a Rembrandt. O título se diferencia propositadamente de “Night Watch”, a tradução inglesa do quadro “Ronda Noturna”. Refere-se aos pesadelos do pintor na fase de sua vida em que pintava a célebre tela de encomenda, tinha seu primeiro filho e via a esposa adoecer de maneira fatal. Temeroso de perder a visão, ele se punha a “observar a noite” (nightwatch). Enxergava “milhas e milhas de escuridão pintada, apenas com espasmos de luz”, o que pode ser a definição perfeita de muitas das suas pinturas. Em 2007, Greenaway já havia se tornado um bufão intelectual, afeito ao excêntrico e ao escatológico. Sua noção de iconoclastia é pesadona e frontal como piada de caminhoneiro. Rembrandt é visto nu, dizendo-se cansado de tanto se masturbar e procurando abrigo nos corpos de uma prostituta e uma empregada. Uma trama impenetrável para quem não conhece o contexto da Holanda da época pretende decifrar a charada de “Ronda Noturna”, com suas referências a personagens reais e a um crime famoso. A forma teatral como as figuras se apresentam na “Ronda” inspirou Greenaway a fazer o filme todo em tableaux fixos de estúdio, enquadrados em conjuntos teatrais, o que realça a beleza da direção de arte e da luz “holandesa”, mas também gera frieza e distanciamento. A verborragia permanente tampouco ajuda a fisgar nosso interesse. Entre as melhores cenas está a morte de Saskia e a dos personagens do quadro criticando o resultado – culminando com a sugestão de um deles: “Let’s burn the fucking thing!”. Vocês certamente não acreditariam se eu dissesse que contei 624 “fucking” nos diálogos. Mas deve ser por aí. Numa coisa podem acreditar: o ator Martin Freeman é excelente.


Lembrando que O UNIVERSO GRACILIANO, doc de Sylvio Back ainda não lançado nos cinemas do Rio, está passando em várias reprises no Canal Brasil:
18 de fevereiro, às 15h00
22 de fevereiro, às 13h30
24 de fevereiro, às 19h00
26 de fevereiro, às 17h00
27 de fevereiro, às 10h45
28 de fevereiro, às 08h45

Minha resenha do filme pode ser lida aqui.

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