Longe do Carnaval

O Carnaval para mim é uma elipse na cidade. Tenho a sorte de morar num lugar à margem de qualquer folia, de onde não ouço sequer o ruído de um apito. Não costumo viajar nessa época, preferindo me entregar às leituras, aos filmes em casa e à organização de coisas que passam o ano inteiro à espera de uma chance como essa.

Nesses dias tenho visto dois filmes por dia, um doc e uma fic. Alguns deles eu já comentei nas redes sociais e compartilho aqui. Outros serão abordados mais adiante, quando entrarem em cartaz. Segue também uma pílula sobre um livro que li antes de Diário de Inverno, de Paul Auster, que me arrasta agora para as gostosas memórias do autor.

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O Oscar de longa documental do ano passado coube a 20 FEET FROM STARDOM (A UM PASSO DO ESTRELATO), sobre as cantoras americanas de back vocal que não conseguiram desenvolver carreira solo. Só agora pude assisti-lo. Fica muitos passos atrás do vencedor de 2013, o magnífico “Searching for Sugar Man”, principalmente por não ter uma história forte no centro do filme, mas diversas histórias formando um painel. Vindas em sua maioria dos corais gospel, as cantoras de apoio têm por função exatamente não se destacar. Ao contrário, devem mesclar suas vozes num coletivo harmônico que emoldura e reforça a voz do vocalista principal. Em muitos casos, deviam também mostrar as pernas e dançar eroticamente para levantar os ânimos da plateia. Quando os roqueiros brancos quiseram soar como negros, foi a elas que apelaram.

O filme de Morgan Neville, na tradição elegíaca do documentário americano, as apresenta como lendas vivas, cheias de talento e dignidade. A mítica Darlene Love (The Blossoms) virou faxineira depois de ter cantado atrás de Elvis, Dionne Warwick e Tom Jones. Claudia Lennear cantou com Mick Jagger e David Bowie antes de se tornar uma professora de espanhol. Outras, como Merry Clayton e Tata Veja, tentaram inutilmente fazer carreira solo. Não havia lugar para duas Aretha Franklin ou Diana Ross. Entre as mais novas, Judith Hill (Michael Jackson, Stevie Wonder, Elton John) ainda tenta construir sua fama individual, e o filme não conta sua escandalosa eliminação no The Voice em 2013. Enquanto isso, a excepcional Lisa Fischer desdenha dos sonhos de estrelato e diz contentar-se com o prazer de cantar.

O doc tem um belíssimo trabalho de montagem, com a música alternando sucessivamente entre o primeiro e o segundo plano sonoro – o que reflete o próprio drama das cantoras de fundo. Elas fazem as acrobacias vocais e dão brilho aos shows, mas precisam se manter relativamente anônimas e voltar cedo pra casa.


le-pays-des-sourdsO PAÍS DOS SURDOS, documentário de Nicolas Philibert de 1992, é uma joia rara de sensibilidade na captação de pessoas especiais. Para começar, ele dispensa a linguagem oral e nos coloca literalmente dentro do mundo dos deficientes auditivos. Os depoimentos dos personagens, feitos em linguagem de sinais, são traduzidos por legendas. As situações do cotidiano se sucedem também assim, seja entre meninos de uma escola para surdos, seja entre jovens em férias, artistas ou gente madura numa casa de repouso. As crianças, vistas em seu encanto e seu esforço de aprendizado, antecipam em 10 anos a perícia que Philibert demonstraria em “Ser e Ter”, seu filme mais famoso. Um professor de linguagem de sinais se destaca pela graça de suas “falas”, mas a expressividade facial e gestual é uma constante entre pessoas de todas as idades. A cerimônia e a festa de casamento de um casal de surdos ocasiona cenas de comicidade impagável, prova de que Philibert não escamoteia um dado inerente à vida de seus personagens. Fala-se de discriminação, persistência e superação, mas sem qualquer ranço de pieguice ou auto-ajuda. Alguns comentários são reveladores, como a compaixão que uma família de surdos nutre por um parente que possui audição normal, ou o sentimento gregário que faz com que surdos prefiram a companhia de outros como eles. Mas, para além do tema, o que torna grande esse filme é a atenção para os momentos de profunda humanidade, quando a surdez passa ao segundo plano e testemunhamos a vida simplesmente.


1A INVENÇÃO DO CINEMA BRASILEIRO, livro de Paulo Antonio Paranaguá, propõe uma genealogia do modernismo nas telas, polarizando as questões entre o engajamento de Mario de Andrade e o desbunde de Oswald. Começa pelo envolvimento dos modernistas de 1922 com o cinema; identifica continuidades no cinema de Mário Peixoto e Humberto Mauro, assim como nos textos de Paulo Emilio, nas décadas de 30 e 40; e chega ao Cinema Novo e o Tropicalismo. Valendo-se de uma concepção cíclica da história, ele estuda as tradições e rupturas, assim como as múltiplas conexões existentes dentro da grande “família modernista”. São motivos suficientes para se ler esse livro bastante conciso. Cada uma de suas três partes é introduzida por uma edição de textos alheios, com os quais Paranaguá vai estabelecer diálogo e contraponto. Questões como nacionalismo e colonização cultural recebem atenção, é claro, sempre dentro da perspectiva anti-comunista do autor. Sua defesa de que o homem brasileiro está tão presente em LIMITE quanto nos filmes mineiros de Mauro não chega a me convencer, embora nisso não vá juízo de valor.

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