Timbuktu, Cinza, Rembrandt

A mítica cidade de Timbuktu, no Mali, foi tradicionalmente um centro de tolerância religiosa e racial, onde as culturas songhai, árabe e tuaregue conviveram em harmonia. Ultimamente, virou palco de disputas entre o governo do país, apoiado pela França, e grupos radicais islâmicos. A ocupação da cidade por esses últimos durante nove meses em 2012 é o que inspirou Abderrahmane Sissako em TIMBUKTU. O filme é um painel dos horrores deflagrados pela chegada do fundamentalismo militarizado a um lugarejo tranquilo e uma gente apreciadora da beleza. A música, o esporte, o fumo e o lazer são proibidos. Os casamentos forçados viram norma. Os adultérios passam a ser punidos com apedrejamento e os crimes, com execuções sumárias. Sissako montou esse quadro de observações em torno de uma história central que não se relaciona diretamente com a sharia (a justiça islâmica), mas que recolhe seus efeitos indiretos. A narrativa é fragmentada, descontínua e teatral, tornando um pouco difícil compreender os meandros de hierarquia e poder vigentes naquele contexto de exceção. Mas o principal está claro: enquanto o Ocidente teme os atentados da vendetta islâmica, os próprios muçulmanos submetidos à barbárie jihadista sofrem cotidianamente o ataque a seus valores, suas práticas culturais e seu modo de vida. Sissako filmou na Mauritânia, onde colheu imagens belíssimas da natureza sahariana. O ritmo pausado do seu cinema abre espaço para metáforas visuais poderosas, como as esculturas humanas alvejadas por tiros dos radicais, ou o futebol sem bola jogado pelos garotos da cidade. Com ironia ele enfatiza também a hipocrisia dos militantes e dos oportunistas locais, que não adotam para si as leis impostas aos demais. A investida de um deles contra uma paisagem que sugeria erotismo é um desses momentos iluminados. Enfim, um filme de personalidade muito própria, além de oportuno e mesmo obrigatório.


50 TONS DE CINZA me lembrou uns velhos filmes pornôs que incluíam uma pequena dramatização antes de o casal cair na farra. Nos exemplares mais “sofisticados”, eles podiam se conhecer num supermercado, ou numa reunião de trabalho, sair para jantar, depois entrar no apartamento, conversar um pouco, tomar mais um drinque e então começar a tirar a roupa um do outro. A gente tinha que aturar aquela presepada toda até chegar o que de fato interessava. O filme de Mr. Grey é mais ou menos isso, mas sem a tal parte que interessava. Afinal, a meta é fazer escândalo sem escandalizar, levar as coisas até onde uma plateia de classe média católica não se sinta ofendida. Em muitos momentos tive vontade de rir de Dakota Johnson gaguejando ou mordendo o lábio diante do seu príncipe, ou tomando sustinho toda vez que ele aparece sem ser esperado. Ou também de Jamie Dornan franzindo o cenho e empertigando o tronco para sugerir um personagem complexo. No fundo, ele poderia ser uma versão mauricinha do Boca de Ouro de Nelson Rodrigues com aquela história da mãe prostituta. Poderia… Ainda mais com aquelas Bachianas Brasileiras ambientando a casa.

Atores anódinos para um filme asséptico, em que não se vê uma gota de suor nem um pentelho, e cada cena parece saída de um anúncio de carro ou gravata. Diálogos e situações repetidas com mínimas variações infinitas vezes (precisava ter dois voos-supresa para enfeitiçar a moça?). Erotismo e sado-masoquismo tão soft que fazem Branca de Neve e os Sete (!) Anões parecer mais, digamos, sugestivo (dizem que o livro é mais “forte”). E afinal de contas, vamos falar a verdade: tudo isso é só mais uma maneira de reafirmar a velha noção de que, pelo menos por um tempo, mulher gosta mesmo é de exibição de riqueza, submissão e umas boas palmadas na bunda.


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No post anterior comentei sobre o “Nightwatching” de Peter Greenaway. Alertado por Julio Miranda, fui procurar o documentário que Greenaway fez sobre o mesmo assunto, chamado REMBRANDT’S J’ACCUSE…! Encontrei um trabalho de mestre, que devolve um bocado da minha confiança no diretor. Ele mesmo narra uma espécie de palestra ilustrada sobre 33 dos 50 mistérios que impregnam o quadro “Ronda Noturna”. Detendo-se mais demoradamente sobre os detalhes da tela, Greenaway decifra não só a pintura, como o seu outro filme. Entre verdades comprovadas e especulações sugestivas, são analisadas as posturas e identidade dos personagens, a luz, a composição e as histórias de fundo sobre o assassinato do chefe da Milícia de Amsterdã a mando de um candidato ao posto, crime cujas circunstâncias Rembrandt estaria denunciando no quadro. O doc retoma cenas de “Nightwatching” e entrevista/interroga personagens em seus trajes e no próprio cenário da ficção. Vale como uma bela lição de História da Arte, pesquisa de contextualização histórica e análise minuciosa de uma obra-prima da pintura. Greenaway reata também com suas práticas de dividir a tela e fazer incrustações, mas sem o efeito dispersivo de outros filmes. Aqui tudo dialoga em benefício da clareza e da iluminação. Até 2008, pelo menos, nem tudo estava perdido.

Um comentário sobre “Timbuktu, Cinza, Rembrandt

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