Yes, nós temos filme-ensaio 4/6

O modo Viagem

Tanto Passaporte Húngaro e 33 quanto Diário de uma Busca e 500 Almas, já citados aqui, são filmes que se realizam em grande parte como viagens de seus diretores à procura de informações, vestígios ou realizações pessoais. Timothy Corrigan cita os “encontros experienciais” nos “espaços do mundo” como os que “testam e remoldam mais geralmente o sujeito ensaístico”, esse “eu que está continuamente no processo de investigar-se e transformar-se”.

Entre as viagens ensaísticas realizadas pelo cinema brasileiro seria interessante considerar os exemplos de Pachamama, de Eryk Rocha, Diário de Sintra, de Paula Gaitán, e os vídeos Framed By Curtains e Neptune’s Choice, de Eder Santos, e The Eye Land, de Cao Guimarães. Em cada um deles, o travelogue atende a objetivos diferentes, mas sempre submetendo a subjetividade do realizador ao processo do deslocamento e da desterritorialização.

“Não há limite entre viagem e filme”, diz a voz de Eryk Rocha logo no início de Pachamama. A ideia de movimento é reiterada desde as imagens de abertura (asfalto em velocidade) e através de estradas, serras e cidades do centro-oeste e norte brasileiro, do Peru e da Bolívia. Eryk empunha a câmera e comenta sobre aquilo que procura e o que encontra: “saber o que estava acontecendo no Peru e na Bolívia” em janeiro de 2007. Ele recolhe sinais de uma América do Sul em transformação a partir da chegada da esquerda ao governo de alguns países. Não há destino fixo predeterminado, mas um dispositivo que se lança no simples ato de viajar. A trajetória também se realiza no tempo, pontuando possíveis vínculos entre o presente em mutação e o passado ancestral e mítico do continente.   

Quando se move, Pachamama é dominado pela exuberância da natureza. Quando se detém, são os rostos que falam, com palavras ou silêncios nos quais se podem ler muitos significados. A edição sonora de Aurélio Dias forja ritmos e atmosferas mobilizadoras, abrindo o campo de representação das imagens para além do visível. Como em Rocha que Voa, Eryk mantém-se oralmente discreto, limitando-se à narração introdutória e a uma crise respiratória que o acometeu no interior de uma mina na Bolívia. De resto, são os encontros do caminho que vão forjando um pensamento sobre a atualidade do continente e identificando resistências à retomada de suas raízes e aspirações populares.

Uma viagem de retorno a Portugal é o que constitui Diário de Sintra, de Paula Gaitán – que, junto a Glauber e Eryk Rocha, formam talvez a família mais ensaística do cinema brasileiro. Na verdade não há diário, mas basicamente um travelogue por Lisboa, algumas aldeias e Sintra, a cidade onde Paula e Glauber viveram com os filhos nos últimos meses da vida dele. A voz meditativa da diretora introduz frases esparsas e trechos de poemas, mais numa invocação que numa evocação do “passado extinto, real ou imaginário”. Essa voz vai aos poucos se mesclar com a de Glauber em áudios de Sintra, ajudando a trazer de volta os fragmentos de memória, que vão se dispondo em camadas de tempo, de imagens e de sons, como que manipulados pelas mãos da diretora que substitui o seu rosto dentro do quadro. Soma-se também a voz de Maíra, filha de uma união posterior de Paula, como mais uma indicação do acúmulo de temporalidades. Às cenas típicas de viagem vão se juntar filmagens domésticas da família na Sintra de 1981, feitas por Paula em Super 8 quase 20 anos antes, além de “instalações” em que fotos de Glauber e da família, assim como livros e escritos, são postos em cena na natureza, vivificados pelo vento e a luz de Portugal. E vemos ainda a apresentação dessas fotos a pessoas da região em busca da lembrança ou do desconhecimento delas a respeito de Glauber.

São essas as “atividades intelectuais e subjetivas que mapeiam o drama da viagem ensaística”, a que se refere Timothy Corrigan em seu livro. Um drama de verdade, pois ao mesmo tempo que mobiliza o aparato cinematográfico em direção àquelas memórias (a casa, a paisagem, as pessoas), Diário de Sintra assume-se como tentativa de apreensão fadada ao fracasso. Tudo no filme foge quase simultaneamente a seu aparecimento, sem que as mãos de Paula consigam reter. Por mais que os tempos se sobreponham, há uma barreira intransponível entre eles. E um ponto de inflexão bem demarcado, que é a morte de Glauber, magnificamente representada nas cenas finais. Mesmo a voz de Paula é uma voz à deriva, um tanto desencarnada, ou, como definiu Cléber Eduardo, “uma primeira pessoa que se dissolve ao ver e falar” (Diário de Sintra – Reflexões sobre o filme de Paula Gaitán, org. Rodrigo de Oliveira).

Mais identificados com o ensaio experimental poético, as “video letters” de Eder Santos procuram interpretar os fluxos das duas cidades a partir de elementos históricos ou míticos, conjugados com metáforas audiovisuais. Em Framed By Curtains, gravada em Hong Kong, Eder explora os muitos sentidos da palavra “frame” (fotograma, videograma, moldura, enquadramento, incriminação, nominação e, em última instância, colonização). A megalópole em 1999, prestes a ser devolvida à China, é vista principalmente através dos seus meios de transporte, num movimento constante que, paradoxalmente, é composto de quadros, pequenas prisões que aludem a sua história colonial. Neptune’s Choice, por sua vez, é ambientada em Amsterdã e calcada no papel da água na fundação e constituição da cidade. Nos dois vídeos, as imagens, alheias a qualquer intenção descritiva, parecem aspirar à mesma natureza abstrata da trilha musical. O impulso ensaístico se dá através de um olhar estrangeiro que é expresso não em narração, mas em frases inscritas na tela, como um pensamento poético que organiza impressões em torno de palavras polissêmicas: “frame”, “water”, “war”, “gold”.

Eder Santos já havia abordado a pressa das imagens de turismo no vídeo experimental Europa em Cinco Minutos. Mais recentemente, Marcelo Pedroso enfocou o tema no curta Aeroporto, de alguma forma tributário do agenciamento de fotos fixas de La Jeté, de Chris Marker. Uma moça toma café num aeroporto e observa os passantes. Daí emergem diversas impressões de viagem ilustradas por fotos (e alguns poucos filmes) de locais no Brasil, Peru, Califórnia e Austrália. As vozes dos viajantes compõem uma diversidade de experiências do que seja estar fora de seu lugar de origem, ou como turista de poucos dias, ou como residente temporário.

Cao Guimarães inicia seu The Eye Land com uma longa epígrafe de Nathaniel Hawthorne sobre a sensação de não pertencimento daqueles que passam muito tempo em terra estrangeira e não conseguem mais reconhecer as qualidades do seu “ar nativo”. Seguem-se imagens em fuga de deslocamentos aéreos e da cidade de Londres, sempre com definição precária e acompanhadas do aúdio de recados de amigos distantes em secretária eletrônica e criações sonoras de O Grivo. Também aqui, a subjetividade do autor está alocada no olhar lançado aos lugares, sem qualquer outra asserção pessoal. Em dado momento, o próprio Cao é visto caminhando com os olhos vendados, num eco de seu projeto Histórias do Não Ver. Nesse trabalho, Cao pedia a pessoas que o levassem de olhos vendados para algum local desconhecido e lá fazia fotografias “cegas”, que depois foram expostas em videoinstalação e livro.  

Os filmes-ensaio de viagem têm, portanto, uma organização bastante distinta dos filmes de viagem convencionais, que se pautam pela enumeração serial e os sensos de objetivo, descrição ou desfrute. Timothy Corrigan os vê como “digressões perambulantes”, mapeamentos de uma viagem incompleta, “de uma maneira que também descreve ou sugere como a excursão alterou e desestabilizou fundamentalmente o sujeito viajante”.

Continua no próximo post

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s