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São vários os momentos em que Haskell Wexler (1922-2015) se emociona diante da câmera de Pamela Yates. Mas um deles parece especial: Wexler tem os olhos mareados e a voz embargada ao negar as acusações que já sofreu de ser antipatriota. Nos EUA, sobretudo, onde o mito do patriotismo é cultivado ao extremo, essa costuma ser uma ofensa irreparável. Wexler reafirma, portanto, um patriotismo que não seja mera obediência bovina aos valores oficiais da nação, mas um que consista em perseguir continuamente a verdade, mesmo quando ela se contrapõe aos discursos ditos “patrióticos”.

Embora tenha sido famoso em Hollywood pela direção de fotografia de filmes como Um Estranho no Ninho (do qual foi demitido por pressão do FBI), A Conversação, Crown o Magnífico, Quem Tem Medo de Virginia Woolf? e Esta Terra é Minha Terra (os dois últimos lhe valeram Oscars), Wexler desfrutou de forte reputação como documentarista engajado. É sobre essa face de sua carreira que ele conversou, no último ano de sua vida, com a discípula Pamela Yates, também ela autora de documentários políticos progressistas. “Visibilidade é mercadoria”, diz ele a certa altura, explicando como instrumentalizou sua fama no mainstream para dar notoriedade mínima a seus docs anti-establisment.

Ao longo desses depoimentos muito diretos e francos para a câmera de Pamela, Wexler comenta e contextualiza os principais documentários que dirigiu. Sobre os ex-presos políticos brasileiros filmados no Chile em Brazil: a Report on Torture, por exemplo, revela que a ativista Maria Auxiliadora lhe contou, por trás da câmera, que havia norte-americanos orientando as sessões de tortura sofridas no Brasil. Os temas dos filmes e das conversas transitam pelas intervenções dos EUA na América Latina, a luta por direitos civis e contra o racismo, o movimento Occupy e as condições de trabalho na indústria do cinema. O clássico Medium Cool (1969), experimento pioneiro na combinação de documentário e ficção, fornece a oportunidade para Wexler discorrer sobre sua técnica e a linguagem do filme (“Oitenta por cento foi roubado de Godard”, admite).

Em seu movimento pendular entre Hollywood e o engajamento, Haskell Wexler reservava aos documentaristas o papel de “bons jornalistas” em busca da verdade. No seu caso, isso não deve ser tomado como uma redução do ofício, mas como um compromisso de cidadão. Um cidadão que perde o medo quando está com o olho na câmera e se torna rebelde porque a emoção não o deixa ser de outro jeito.