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Há pouco tempo assisti ao documentário “Vida de Rainha”, que mostrava o cotidiano de diversas transformistas do Rio de Janeiro. Ainda não vi “Divinas Divas”, de Leandra Leal, que enfoca a reunião de algumas veteranas para um espetáculo. Muitas personagens presentes nesses dois filmes aparecem também na série NOTURNAS, que estreia hoje como interprogramas no Canal Brasil. Cada episódio tem cerca de cinco minutos. São versões condensadas dos depoimentos que Allan Ribeiro (“Esse Amor que nos Consome”) coletou para um projeto de memória do transformismo carioca, que deve constituir acervo e se transformar também em livro.

Num mesmo camarim decorado e profusamente iluminado, cada diva se apresenta, mostra fotos e documentos importantes de sua carreira, fala de sua vida, viagens, shows e do seu jeito de ser, eventualmente canta ou – como faz Rogéria – revela segredos sobre seu penteado sempre divino maravilhoso. Lá estão desde estrelas internacionais, como Yeda Brown e Valéria, a caricatas mais modestas cujos palcos foram principalmente as ruas, favelas e festas juninas, quando não os michês. Há as que chegaram a servir o Exército e a que acumulou os trabalhos de clown trans e evangelizadora kardecista. Algumas avançaram até a cirurgia transexual, outras nunca se preocuparam tanto com o masculino e o feminino. “Eu não tenho xoxota, mas perna eu tenho”, gaba-se Rogéria.

É claro que tem as clones, seja de Gal Costa, de Marlene ou de Elza Soares. Umas são mais ativistas, outras são mais passivistas, digamos assim. Isabelita dos Patins relembra o beijo em Fernando Henrique Cardoso, enquanto Rudy Pinho não se avexa de contar como recompensava os soldados por aliviarem sua vida na prisão e como galgou ao posto de cabeleireira oficial da mulher de Garrastazu Médici.

Ao todo são 46 interprogramas, 46 personagens caprichadamente “montadas” diante da câmera. Se o Museu da Imagem e do Som não se interessou por tomar seus depoimentos biográficos, Allan Ribeiro o fez. É mais um capítulo do dedicado levantamento que o diretor vem fazendo da cena gay tradicional do Rio. A Turma OK, já retratada no seu curta “O Clube”, aparece aqui como apoio de produção. A iniciativa não tem preço como historiografia de um aspecto da cultura carioca ainda considerado marginal devido ao caráter fake e à eventual proximidade com a prostituição. Deixando-se o preconceito do lado de fora e compreendendo-se a natureza daquele tipo de estrelato, visitar o camarim de NOTURNAS pode ser tão divertido quanto esclarecedor.