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Pílulas críticas sobre UM BRINDE À VIDA e AMNÉSIA

Em UM BRINDE À VIDA, a escuridão briga com a luz. O filme começa nas trevas de uma noite de evacuação em Auschwitz, 1945, quando duas amigas tentam em vão levar junto uma terceira, que não tem condições de caminhar. Dezessete anos depois, as três vão se reencontrar para um veraneio na ensolarada praia de Berck-sur-Mer, noroeste da França. O colorido e as amenidades da cidade praiana (pintados com esmero pela fotografia e a direção de arte) não impedirão que os traumas da guerra aflorem na convivência do trio. Duas delas se casaram com outros sobreviventes de Auschwitz, cujas sequelas interferem na relação conjugal. Aos poucos, o sombrio drama nascido no Holocausto vai dando lugar a uma doce comédia de adultério.

O diretor Jean-Jacques Zilbermann filmou, há alguns anos, os depoimentos de sua mãe e duas amigas dela, que viveram a história na carne. O documentário, intitulado “Irène e suas irmãs”, nunca foi lançado. Em 2014 Zilbermann apresentou essa versão dramatizada, tendo à frente a atriz Julie Depardieu como a tímida polonesa Hélène. O roteiro tem sérios problemas para comunicar a afetuosa mas complexa relação entre as amigas. As discussões soam artificiais e muitas situações, implausíveis – como o timing da atitude decisiva de Hélène durante uma visita do marido. Por mais que as atrizes embarquem nos seus tipos e algumas cenas alcancem certo grau de empatia, o laço emocional entre elas nunca é desenhado de maneira satisfatória, nem mesmo os efeitos produzidos pelo tempo e o distanciamento recíproco. Resta a insinuação de quanto custou aos sobreviventes livrarem-se dos fantasmas que os seguiram dos campos de concentração.



No início, AMNÉSIA é uma desajeitada comédia quase romântica em torno de um jovem DJ alemão e uma senhora reclusa sob a luz dourada de Ibiza no ano de 1990. Mas o título não se refere apenas à boate famosa em que Jo (Max Riemelt) almeja se apresentar. A gente sabe que por ali vem muito mais coisa. Martha (a veterana e ainda bela Marthe Keller) tem um violoncelo encostado na sala e se recusa a falar seu alemão natal ou embarcar nos “fuscas de Hitler”. A aproximação dos dois é uma senha para penetrarmos nos mistérios de Martha.

De uma hora para outra, a História entra pela sala de jantar e o filme muda radicalmente de tom. Entramos no terreno sombrio das culpas de guerra. A discussão se estabelece entre, de um lado, o silêncio e o esquecimento como cumplicidade com o nazismo e, de outro, a fuga como covardia. A recente queda do Muro de Berlim e a explosão da música eletrônica representariam o avanço do tempo sobre os traumas do passado, que no entanto resistem seja naquilo que se lembra, seja no que se tenta esquecer.

Além do argumento bastante envelhecido, o filme do iraniano-suíço Barbet Schroeder tem um desenvolvimento narrativo canhestro, cheio de climas desconexos e diálogos muito banais para tema tão grave. A relação entre Jo e Martha flui sem naturalidade nem atmosfera coerente. Muitas cenas parecem terminar somente porque o diretor não sabia mais o que fazer com elas. A ameaça de despejo, que poderia fazer de Martha uma espécie de Clara de “Aquarius”, é um subplot abandonado em meio aos rochedos da ilha. Bruno Ganz comparece para sustentar a sequência mais dramática, em torn o da qual todo o filme gira e talvez a única a merecer legítima consideração.