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Com UMA HISTÓRIA DE LOUCURA, Robert Guédiguian prossegue no seu acerto de contas pessoal com sua meia ascendência armênia. Ele já havia feito “Armênia” (2006), drama sobre paternidade e pertencimento étnico, e “L’Armée du Crime” (2009), reconstituição da história do líder armênio Missak Manouchian na resistência contra a ocupação alemã na França. Agora ele parte de outro herói armênio, Soghomon Tehlirian, que na Berlim de 1921 matou à queima-roupa o principal responsável pelo genocídio armênio e foi inocentado pelo tribunal alemão. Numa habilidosa opção de roteiro, Guédiguian evita mostrar o massacre, trocando-o pelo relato de Tehlirian diante do juiz.

Um salto de quase 60 anos nos leva à Marselha do fim dos anos 1970, quando o retrato de Tehlirian dividia com o de Che Guevara o espaço na parede dos ativistas que lutavam pelo reconhecimento internacional do genocídio. A família Alexandrian condensa as diversas formas como os imigrantes armênios tratavam a memória da grande tragédia do seu povo. A avó (Siro Fazlian) tem razões profundas para alimentar o radicalismo. O pai da família (Simon Abkarian) prefere passar a borracha no passado, enquanto a mãe (Ariane Ascaride) apoia a militância do filho Aram (Syrus Shahidi).

Com a ação se estendendo até o início dos 90, passando por um atentado em Paris, pela guerrilha armênia no Líbano e pela própria Armênia em fins do império soviético, Guédiguian traça um painel ambicioso e eficaz dos dilemas enfrentados pela luta armada e a consciência dos combatentes. O espelhamento entre Aram e uma vítima inocente do atentado que ele comete traz para a história os temas da ética no terrorismo, das ressonâncias do heroismo através dos tempos, do entendimento das razões do outro, da culpa (ou sua ausência), da vingança, do perdão e do amor maternal. É notável a forma como o filme faz convergirem todas essas questões num enredo que nunca resulta confuso ou despropositado. Guédiguian tem a suprema capacidade de nivelar a emoção pessoal dos seus personagens com a matéria histórica, sem jamais trair uma nem outra. Para mim, este é um dos grandes filmes da temporada.



O tango é um universo estético tão forte que absorve tudo aquilo com que se relaciona. Vejamos o doc O ÚLTIMO TANGO, em cartaz no Rio. Suas estrelas são o casal de tangueros mais célebre da Argentina, María Nieves e Juan Carlos Copes. Eles dançaram juntos durante 50 anos, parte dos quais vividos em clima de romance, parte numa nuvem de ódio recíproco. Enlaçaram-se nos palcos por tanto tempo porque o amor à dança sobreviveu ao fim do amor entre eles. Pode ser um lugar-comum dizer que a história de María e Juan parece letra de tango, mas o que seria do tango sem os seus lugares-comuns?

Hoje separados até artisticamente, María e Juan só aparecem juntos em cenas do passado. Uma sombra de mágoa e amargura paira entre eles quando falam um do outro. Machismo, submissão, paixão e traição esculpem a “tanguice” daquela relação. Na tela, atores de outras gerações os representam em diferentes idades, os entrevistam e trocam impressões sobre os sentimentos em pauta. O diretor German Kral muito habilmente integra esses vários níveis para combinar memória e reflexão, documento e interpretação poética. Assim “Um Tango Más” consegue ser, a um só tempo, um musical elegante, um documentário sugestivo e um experimento curioso na área da recriação dramática. Sem nunca perder o elã vistoso e cafona do tango tradicional.



Que um jovem sequestrador prenda sua vítima dentro de uma baleia e se chame Jonas é somente um item do carnaval de clichês a desfilar na tela em JONAS. O garoto é filho da empregada e apaixonado pela filha da patroa. A menina rica tem aquele tipo de fascínio pela periferia, traficantes, etc. E quando Jonas comete um crime e leva Branca para o cativeiro (uma baleia de escola de samba), é claro que a Síndrome de Estocolmo vai comparecer em traje de gala, com direito a banho sensual e poses eróticas.

O filme de Lô Politi, laureado com o Prêmio do Júri no Festival do Rio, junta drama de classes sociais, romance impossível, um pouco de favela movie e um tanto de thriller de sequestro num tipo de filme que cairia muito bem nas mãos de um Beto Brant ou de uma Anna Muylaert. Eles certamente não suprimiriam o ato do sequestro com uma elipse preguiçosa, nem deixariam situações tão implausíveis acontecerem em torno da baleia – um grande balão de plástico estacionado durante uma semana em meio aos preparativos do carnaval sem que ninguém mais entrasse ou percebesse o que se passava ali dentro em alto e bom som. Da mesma forma, não se justifica o fato de Branca não fugir facilmente durante uma ausência de Jonas nos primeiros dias do sequestro.

Para que o espectador pudesse engolir tais absurdices, elas teriam que vir embaladas em roupagem mágica ou irrealista, coisa que o carnaval poderia perfeitamente fornecer. Mas JONAS não se arrisca a tomar distância dos estereótipos. Acomoda-se com eles e oferece pouco mais que as performances consistentes de Laura Neiva e, principalmente, Jesuíta Barbosa.