Nasce uma nação, morre uma repórter

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO e CHRISTINE são dois bons filmes que passaram em branco na temporada de 2016 

Uma das grandes ausências do último Oscar foi a de O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (The Birth of a Nation). Em contraponto com o clássico racista de Griffith (ao qual acrescentou o artigo “The”), o estreante Nate Parker fez um libelo potente e vistoso contra a escravidão numa fazenda da Virgínia, na primeira metade do século XIX. O escravo Nat Turner (vivido pelo próprio diretor) tem sua instrução cassada na infância mas torna-se um pregador da Bíblia enquanto trabalha na colheita de algodão. Usado como amansador de outros escravos com seus sermões, ele vai encontrar na própria Bíblia os princípios da revolta contra os maus tratos infligidos a seus pares. Descobre “a lâmina do Senhor” e lidera uma rebelião que será massacrada pelos brancos.

Quando estreou em Sundance, Nate Parker foi tratado como revelação, e seu filme se credenciou imediatamente aos grandes prêmios da temporada. Mas eis que veio à tona seu envolvimento com um suposto estupro 15 anos antes. Foi o bastante para O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO sair de quase todas as shortlists. Diante do filme, não há como negar que seria candidato robusto a melhor filme, fotografia, direção de arte e maquiagem, pelo menos.

Não que seja uma obra excepcional. Parker tende a confeccionar e glamourizar demais suas imagens, chegando a estetizar o que não podia ser estetizado, como os enforcamentos de negros. A busca da denúncia forte e brutal leva à exposição insistente de torturas e intimidações, sob risco de ser visto como slave porn, se bem que não tanto quanto o inferior “Doze Anos de Escravidão”. Por fim, há toda uma estereotipagem física dos carrascos brancos que leva o espectador a odiá-los não só pelo que fazem, mas também pelo que parecem.

Mesmo com esses senões, o filme se impõe pela convicção da direção e pelos múltiplos aspectos que revela do sistema escravocrata: a eventual generosidade de alguns brancos submetida aos seus interesses econômicos; a pregação religiosa usada como ferramenta de manutenção do status quo; a traição dentro da própria raça como um risco a mais para os escravos revoltosos. Além de tudo, como primeiro longa de um diretor, é simplesmente brilhante.



Na manhã de 15 de julho de 1974, a repórter e apresentadora de TV Christine Chubbuck aproveitou uma pausa na leitura do cinejornal, tirou um revólver da bolsa e suicidou-se ao vivo, deixando no balcão o texto da notícia já pronto para ser lido por terceiros. Esse fato insólito, que reverberou dois anos depois no premiado “Rede de Intrigas”, ganhou duas versões cinematográficas no ano passado.

Uma foi o metadocumentário “Kate Plays Christine”, em que uma atriz representa a si própria preparando-se para interpretar Christine (comento aqui). A outra é CHRISTINE, de Antonio Campos, uma dramatização direta das razões que teriam levado a moça àquela transmissão macabra.

Christine era uma mulher carente, absorvente e estressada, que não se amoldava ao papel de repórter sensacionalista exigido pela emissora regional em que trabalhava. Na expectativa de uma promoção, lutando contra a corrente para aprofundar os temas humanos de suas matérias, abalada por uma paixão não correspondida e pela independência afetiva de sua mãe, ela era uma bomba de frustrações prestes a explodir.

Rebeca Hall encarna a personagem com empenho detalhista e uma profunda compreensão. Sua figura longilínea enfiada no pequeno fusca amarelo é um tremendo ícone de desajuste. Entre os vários prêmios que ela conquistou está o de “Atuação Corajosa” do Women Film Critics Circle dos EUA. Imagino que por um triz não chegou à indicação para o Oscar. É um trabalho vital para a opção de Antonio Campos por um realismo quase sempre cru, com produção de baixo orçamento e alta dramaticidade, que, muito adequadamente, lembra o cinema blue collar dos anos 1970.

Antonio Campos, para quem não sabe, nasceu em Nova York, filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes e da produtora Rose Ganguzza, que foi empresária de Pelé em sua passagem pelo Cosmos e atualmente é chamada de “madrinha do cinema independente de NY”. Apesar da modéstia da produção, CHRISTINE tem angariado um reconhecimento fundamental para projetar a carreira ainda singela do diretor. O filme não tem distribuição no Brasil.

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