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Dois longas da competição internacional do 21º É Tudo Verdade tinham a representação ficcional como argamassa de construção, mas a utilizavam em sentidos radicalmente opostos. Sob o Sol, do russo Vitaliy Manskiy, é mais um filme a abrir uma fresta expositiva no cotidiano da Coreia do Sul, dessa vez por intermédio de uma família supostamente comum. O que o distingue é a esperteza de deixar-se guiar pelas orientações oficiais e revelá-las, sempre que possível, dentro do quadro. Por sua vez, o americano Kate Interpreta Christine, de Robert Greene, investiga o caso da apresentadora de TV que se suicidou ao vivo no telejornal em 1974. A agente da investigação é uma atriz escolhida para viver o seu papel.

No filme sobre a Coreia, a intervenção inescrupulosa de um técnico do governo para ensaiar os personagens e organizar as cenas de modo a transmitir uma imagem positiva do paraíso comunista seria, em tese, uma brutal falsificação da realidade. Mas não é isso o que acontece. Aos poucos, à medida que o filme desfia cenas domésticas ou na fábrica, espetáculos infantis e cerimônias de rua em louvor de Kim Il-sung e Kim Jong-il, vai ficando claro que o fake não é uma alteração do real, mas o próprio real da Coreia do Norte. Aquela é uma sociedade regida pelo automatismo, a uniformização e o uníssono, onde as subjetividades há muito se dissolveram. A cena final com a pequena Zin-mi em lágrimas, incapaz de produzir um pensamento próprio, revela na escala micro um vazio nacional, a lavagem cerebral instaurada como política de estado.

Segundo a versão corrente, depois de ganhar a confiança das autoridades coreanas, Vitaliy Manskiy caiu em desgraça por deixar a câmera filmando em momentos que não deveriam ser vistos. Eu tenho certas dúvidas. A tranquilidade com que os interventores passam suas instruções faz acreditar que o projeto tinha mesmo um caráter assumido de filme ficcional com fins de propaganda. As ocupações dos pais de Zin-mi e a escola da menina teriam sido alteradas para enfocar instituições consideradas exemplares na capital Pyongyang.

O que se depreende claramente desse extraordinário Sob o Sol é a sobreposição de documentário e propaganda, ao mesmo tempo em que a realidade crua se infiltra pelas bordas: a menina que cochila durante a palestra de um veterano de guerra, os pontos de ônibus apinhados de gente soturna, os closes de rostos insondáveis e as lágrimas amargas de Zin-mi.

O caso de Kate Interpreta Christine é antípoda não somente porque estamos nos EUA, capital da liberdade de expressão e do individualismo. Ao escalar Kate Lyns Sheil para fazer o seu próprio papel de uma atriz se preparando para encarnar a suicida Christine Chubbuck, Robert Greene lança várias camadas de especulação. Como uma atriz se aproxima de um personagem? O que teria movido Christine no seu ato? Como lidar com a curiosidade mórbida da plateia por uma imagem chocante?

A representação, portanto, serve como ferramenta de pesquisa não apenas em relação ao fato documentado, mas também ao ato de documentá-lo e ao tipo de interesse que isso possa causar. Kate procura se imbuir física e psicologicamente de Christine, num trabalho muito típico da escola de interpretação americana. O jogo de cena da atriz, contudo, acaba assumindo um caráter verdadeiramente falso (gosto mesmo dessa expressão), na medida em que se torna algo exibicionista e um tanto sensacionalista. As questões que surgem entre a atriz e a cena – insatisfação, mal-estar, indignação – parecem seguir mais um roteiro preestabelecido do que um fluxo natural de vivência e percepção do trabalho.

Posso dizer, então, que Sob o Sol incorpora o falso para desnudá-lo e assim revelar uma espécie de realidade paralela, talvez a única vivida conscientemente pela população norte-coreana. E Kate Interpreta Christine busca o falso para tocar uma instância do real, mas falha em seu intento ao redundar num outro tipo de falsificação.