É Tudo Verdade: A Copa dos Trabalhadores

Quando o Qatar foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 2022, diversas empresas de recrutamento começaram a contratar trabalhadores imigrantes para a construção de estádios, alojamentos, estradas, etc. Estima-se que 60% da população daquele rico país do Golfo Pérsico seja de imigrantes que moram em subúrbios muito diferentes da paisagem futurística da capital Doha.

A Copa dos Trabalhadores usa um dispositivo interessante para descortinar um pouco dessa realidade. Filmado em boa parte clandestinamente (mas sem capitalizar sobre isso), se disfarça de documentário sobre futebol.

Com o intuito de levantar o moral dos operários e integrá-los à “comunidade do futebol”, um comitê estatal vem promovendo desde 2013 um torneio anual entre times das empresas de recrutamento. O filme acompanhou o campeonato de 2014, disputado em pequenos estádios já prontos. No foco central estava a performance do time da GCC (Gulf Contracting Company), formado por africanos, nepaleses e indianos. As emoções dos jogos estão lá resumidas, mas a pauta é bem outra.

O orgulho de vestir a camisa e bem servir à empresa, estimulado pelos representantes dos patrões, chocava-se com as más condições em que viviam os operários, muitos trabalhando até 12 horas por dia, sete dias por semana, em troca de salários aviltantes. Sair do campo de trabalho para passear ou namorar, ou mesmo entrar no shopping do prédio onde trabalhavam dependia de autorização especial. Não por acaso, um dos melhores momentos do filme é uma conversa dos imigrantes a respeito de liberdade e escravidão moderna.

O diretor americano Adam Sobel trabalha há vários anos no Qatar produzindo reportagens. Para esse primeiro longa, obteve acesso privilegiado à intimidade dos alojamentos e, por extensão, ao clima de camaradagem e aos sonhos dos personagens. Ficamos próximos especialmente do capitão do time, o ganense Kenneth, que foi para o Qatar na esperança de ser descoberto como jogador de futebol.

Os rumos do campeonato ensejam a oportunidade de algumas reviravoltas no estado de espírito dos jogadores, quando emergem queixas, conflitos raciais e revolta contra as mentiras corporativas. Mas o filme abre espaço para impressões diversificadas, privilegiando a complexidade do assunto em detrimento de uma retórica paternalista. Além disso, é muito dinâmico e envolvente como um bom documentário sobre futebol.

  

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