Sepultura no cinema e muita vida no teatro

SEPULTURA – ENDURANCE é um filme para fãs. Para fãs que não precisam de um filme para escutar a música da banda, pois esta ocupa  – ouso estimar – menos de um quarto da duração. É para fãs mais interessados em ver os caras nos bastidores de turnês e nos estúdios, compartilhar sua admiração com outras feras do Heavy Metal e saber um pouco das origens do Sepultura em Belo Horizonte e sua evolução até o topo da cena internacional.

Para esses fãs, pode soar como sacrilégio um filme sobre o Sepultura sem a participação direta de Max e Iggor Cavalera, que não quiseram dar as caras. A saída deles é uma das principais histórias que a banda tem para contar, a par de sua incrível capacidade de mudar um pouco a cada troca de integrante e resistir com garra durante 30 anos de viagens quase ininterruptas.

Para mim, que talvez nunca tenha ouvido um rugido do grupo antes, foi interessante verificar que o Sepultura não faz a linha do comportamento agressivo que um leigo associa ao estilo musical, pelo menos desde que se profissionalizaram e ganharam o mundo. Hoje são homens maduros, sensatos e até “fofos” diante do público e das câmeras. As caretas de  só rolam para fotos e brincadeiras. Uma das melhores cenas é o encontro de Andreas Kisser e Paulo Jr. com o senhorzinho que fez os primeiros investimentos na banda, lá nos anos 1980.

De resto, o documentário de Otávio Juliano segue um padrão bastante básico, sem se deixar contagiar pela ferocidade do Metal.



A dica para quem quiser se reenergizar através do teatro no Rio é ir duas noites à Avenida Graça Aranha. Os teatros Sesc Ginástico e do Sesi estão como duas usinas de alta voltagem cênica.

No Ginástico, Michel Melamed, sozinho em cena, faz um tour de force físico e criativo no seu MONÓLOGO PÚBLICO. Há um palco dentro do palco, espaços por onde o ator/autor alterna sua performance incansavelmente. Fora do “palco” ele é informal numa bem-humorada crônica autoficcional. Quando sobe à cena-dentro-da cena, vira espetáculo vocal e corporal. O texto, em boa parte composto de frases que lembram os espirituosos tweets de Michel, vai da sátira ao nonsense, brincando incessantemente com o valor e o sentido das palavras. Senhor absoluto do tablado, o bom Michel parece não temer a vertigem dos significados, nem os limites do cansaço.

Foto: Ricardo Bajterman

Enquanto isso, no Teatro do Sesi, os oito batutas de CABEÇA inundam o espaço com o inconformismo inspirado no disco “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, que completou 30 anos em 2016. É uma ópera-rock-documentário que combina show de cover com recordações pessoais dos atores-músicos e uma visão crítica dos acontecimentos dos anos 1980. Projeções, leituras e depoimentos dividem a cena com as 13 músicas do disco, tocadas com imenso vigor e surpreendente qualidade. Cheguei a ouvir de alguém, na sessão de reestreia: “É melhor do que o original!”.

Concebido num momento de depressão nacional com o Governo Sarney e incertezas quanto à redemocratização do país, “Cabeça Dinossauro” foi um berro de insatisfação e crítica social. Voltar a ele hoje, atualizando seus ataques a várias formas de conservadorismo, é um gesto urgente e necessário. CABEÇA é uma injeção de ânimo para o bode político que se instalou em nossa sala.

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