Uma paquistanesa na Bélgica e um brasileiro no Ártico

Sobre A GAROTA OCIDENTAL e SOUNDTRACK

Em tempos de globalização virtual, até os noivados arranjados do Oriente se fazem agora pelo Skype. Talvez seja essa a grande novidade apresentada por A GAROTA OCIDENTAL, um drama muito bem realizado mas que opera nos limites do já conhecido através de tantos outros filmes. Numa família paquistanesa da Bélgica, a jovem Zahira (Lina El Arabi) resiste a aceitar as regras da tradição que a obrigam a se casar com um conterrâneo morador de Islamabad. Numa concessão muito especial e “moderna”, lhe é dado escolher entre três pretendentes a partir de seus retratos.

Zahira já tem laços com o modo de vida europeu, o que explica o título brasileiro atribuído ao original “Noces” (Núpcias), mas ainda vive os dilemas morais herdados da família e as indecisões típicas da adolescência. A primeira cena a surpreende em meio a uma consulta sobre aborto. Mas esse não é o pomo da discórdia com os pais e o irmão, e sim a obediência a respeito do casamento.

Inspirado por uma ocorrência verídica, o diretor e roteirista Stephan Strecker desdobra o caso com esmero didático, fazendo com que cada questão seja explicitada claramente em diálogos. Trata-se de uma ideologia baseada na aceitação das injustiças do mundo, na defesa da honra familiar e na expectativa de que o amor surja depois – às vezes bem depois – do matrimônio.

A filmagem claustrofóbica, com muitos closes e poucos momentos de respiro, transmite bem o universo moralmente fechado dos Kazim. Zahira se dispõe a desafiá-lo com a coragem de quem já não se vê como parte daquilo. Mas a sua ingenuidade na última sequência, que leva ao desfecho trágico e brutal do filme, talvez só se justifique por ter acontecido de verdade.



Somente depois de esperar cerca de meia hora do que parecia ser um longo prólogo, percebi que SOUNDTRACK já havia começado a contar sua história. Uma história tão indefinida quanto as paisagens do Ártico onde se passa. Em cadência morosa, obscura e verborrágica, testemunhamos a chegada de um fotógrafo à estação científica naquele fim de mundo gelado. Ele vai fazer selfies ouvindo música para restituir a experiência audiovisual numa futura exposição. Por alguns dias, vai conviver e trocar experiências com pesquisadores de funções também mal definidas.

É bom ter de volta Selton Mello depois de uma relativa ausência no cinema, que se seguiu ao período de superexposição na década anterior. Ele adotou uma interpretação visivelmente contida no papel de Cris, o artista em meio aos cientistas. Mas se imprime alguma espessura ao personagem, Selton não tem material para trazer o espectador para o foco de suas intenções. Tudo é vago e destituído de referências concretas que despertem nosso interesse por qualquer coisa que aconteça naquele lugar.

Um exemplo: numa sequência promissora, Cris mostra a Mark (Ralph Ineson) os diferentes efeitos que músicas diferentes provocam na contemplação de uma montanha. Não nos é dado ver a montanha, nem ouvir as músicas, o que nos aliena completamente da cena. De maneira geral, é o que acontece no filme inteiro.

Tanto Selton quanto Seu Jorge (coprodutores do filme) e os personagens estrangeiros viram “escadas” para o inglês Ralph Ineson pontificar como senhor da consciência humanística e ecológica. Através dos diálogos entre Mark e Cris, os publicitários Bernardo Dutra e Manitou Felipe (assinando direção e roteiro como “300ml”) empacotam uma série de rascunhos de questões para a plateia mascar enquanto vê o filme: o desprendimento entre criador e criação (tanto na arte quanto na ciência), o espírito de exploração e o instinto de autopreservação da espécie, o sentimento de felicidade, o futuro da Humanidade e os perigos de caminhar na neve.

Quem quiser ir além dos enunciados de todos esses temas, encontrará apenas o vazio da paisagem e do sentido. Só Antonioni poderia dar jeito nesse argumento. Como diz Mark na cena em que convida Cris a passear: “There is no where”. É isso mesmo. Não há muito para ver nem para ouvir em SOUNDTRACK.

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