A música já começa no título

Chega enfim aos cinemas do Rio um filme que há dois anos clamava por esse espaço. XINGU CARIRI CARUARU CARIOCA é para ser visto e ouvido em grande estilo.

Na vigente cacofonia de documentários musicais por aqui, esse de Beth Formaginni desfruta de uma personalidade toda especial. A viagem pelos sopros brasileiros é conduzida como uma série de encontros do flautista carioca Carlos Malta com seus colegas de ofício em aldeias indígenas e bandas de pífanos nordestinas. Poucas vezes a interação de conversa e performance se deu com tamanha naturalidade e poder de encantamento. Malta se revela um ótimo âncora de documentário e um pesquisador perspicaz.

Se a musicalidade começa já no título, em cada uma das regiões Malta e Beth foram recolher a essência de cultura que move os músicos. Entre os Kuikuro do Xingu, por exemplo, a flauta tem valores sagrados e de interdição. Uma espécie de procissão musical de oca em oca produz uma das sequências mais bonitas que vi nos últimos tempos.

Já no Crato e em Caruaru, o filme vai encontrar pifeiros célebres como Raimundo Aniceto (na foto acima, com Malta), João do Pife, Marcos do Pife e Chau do Pife. A festança desse povo na Feira de Caruaru é outro momento de puro deleite. Em Monteiro, na Paraíba, Malta vai visitar a veteraníssima Zabé da Loca – e a visita se transforma numa comovente celebração em torno da mitológica figura. O périplo pifeiro vem terminar com um cortejo musical no Rio, onde músicos vão se juntando à banda Pife Muderno até atingirem a foz do Rio Carioca.

A imensa simpatia do filme contagia o espectador do início ao fim. Não há qualquer retórica ou informação enfiada goela nossa abaixo. Se acabamos aprendendo muito sobre os sopros brasileiros, é porque testemunhamos encontros entre gênios do instrumento. Ao mesmo tempo, o filme vai criando pontes e intercâmbios entre as culturas indígena, popular e pop, fazendo emergir em cada campo o traço comum da alegria em fazer música.

Beth Formaggini, dona de vasto currículo como produtora, inclusive de Eduardo Coutinho, já ostenta uma obra sólida como diretora de documentários. Ela tem atuado em três eixos: o próprio cinema (Walter.doc, sobre Walter Lima Jr., Coutinho.doc), a política (Memória para Uso Diário, Uma Família Ilustre e o ainda inédito comercialmente Pastor Cláudio) e a cultura popular (Nós Somos um Poema, Nobreza Popular, Angeli 24 Horas). XINGU CARIRI CARUARU CARIOCA pertence a esse último segmento e testemunha a destreza de Beth em encontrar o formato e a perspicácia adequados para cada um de seus projetos.

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