Festival do Rio: Pastor Cláudio

Beth Formaggini já havia antecipado um pouco do chocante depoimento de Cláudio Guerra no premiado curta Uma Família Ilustre. O longa PASTOR CLÁUDIO só faz aumentar o nosso horror diante do relato calmo e frio desse agente da ditadura, responsável pela execução direta de pelo menos nove presos políticos e pela incineração dos cadáveres de outros tantos.

Tudo, ou quase tudo, o que ele conta ao psicólogo e militante dos direitos humanos Eduardo Passos diante da câmera já estava descrito no livro Memórias de uma Guerra Suja (Topbooks, 2012), escrito por Rogério Medeiros e Marcelo Netto a partir de depoimentos de Guerra. Mas uma coisa é tomar conhecimento de fatos com a mediação de um livro, outra é ouvi-los diretamente da boca de seu perpetrador.

O ex-delegado do DOPS não se furta a admitir tudo o que fez e dar nome a superiores e colaboradores. Ele trata esse passado como se pertencesse a outra pessoa, visto que hoje é um pastor evangélico em Vitória (ES) e perdeu todas as benesses do tempo em que era pau mandado da linha dura do Exército. Em entrevista a Alberto Dines no programa de TV Observatório da Imprensa, em 2012, ele dava detalhes das monstruosidades de que participou.

No entanto, diversas circunstâncias conferem um impacto especial à conversa filmada por Beth Formaggini. A começar pelo simbolismo da data em que se deu, 1º de abril de 2015, 51º aniversário do golpe de 1964. Depois, pelo aparato montado no estúdio, com projeções incidindo sobre o corpo do entrevistado e em frente a ele, como que confrontando-o com acusações audiovisuais a respeito de suas vítimas e comparsas. É curioso verificar como um mesmo dispositivo cênico pode surtir efeitos tão distintos em comparação ao que Beth obteve no curta sobre o cartunista Angeli em Angeli 24h.

A forma serena, inquisitiva e às vezes perplexa com que Eduardo Passos se dirige ao antigo carrasco representa perfeitamente o olhar do espectador perante o hediondo. O lobo agora em pele de cordeiro, com a Bíblia nas mãos, é um retrato da impunidade em que deslizam até hoje os açougueiros da ditadura.

Cláudio Guerra expõe, sem qualquer sombra de pejo ou arrependimento, sua biografia de caçador de poder e dinheiro. Primeiro como matador de “invasores de terras”, depois chamado a “resolver problemas” para o DOI-CODI em vários estados. Finda a ditadura, ele seguiu como chefe de segurança de banqueiros de bicho, caminho semelhante ao tomado por muitos oficiais das forças armadas após a reserva. Não tem travas na língua para citar os “coronéis” dos quais recebia as ordens de tocaia, execução e queima de corpos. Só recua estrategicamente ao explicitar os componentes da “irmandade”, integrada por parte da elite empresarial brasileira, que financiava as operações e continua a funcionar até hoje. Menciona apenas a presença da maçonaria e de alguns banqueiros já falecidos.

Quem se deu ao trabalho de estudar os subterrâneos da ditadura conhece a maioria dos pormenores macabros desfiados por Guerra a respeito dos métodos e motivações vigentes. Mesmo para esses, contudo, a experiência direta proporcionada por PASTOR CLÁUDIO é tão ilustrativa quanto aterradora

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